O vergara pós-70 e as missões gaúchas

Carlos Vergara é da mesma "Geração 60" de Antonio Dias e também estará na 29.ª Bienal de São Paulo, apresentando obras político-poéticas que os criadores brasileiros tiveram de desbravar no período ditatorial - no caso do artista, fotografias da série Cacique de Ramos, de 1972, em que ele fez seu "mergulho no carnaval" traduzindo em imagens não uma festa, mas um ritual em que "todo mundo fica igual". "Nos anos 60 e 70 nós nos vimos obrigados a ser mais explícitos. Fica um pouco datado, mas toda arte é política quando expande o sensível, amplia a capacidade de se ver o bom e o ruim", diz o gaúcho Vergara, de 69 anos, que vive no Rio.

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

Só que para mostrar para o público que ele "não morreu na década de 1970", como brinca, Vergara acaba de inaugurar na Galeria Bergamin, nos Jardins, exposição com pinturas e monotipias de série que ele se dedicou a partir de 2003, baseada na história e em "imersões" nas Missões de São Miguel, no Rio Grande do Sul, que ocorreram entre 1609 e 1768. "Ninguém fala dessas missões que foram a primeira tentativa, no Brasil, de uma república cristã-comunista", diz o artista. Foi uma experiência tão única de catequese, como ele afirma, que aos índios da região era ensinado até mesmo música erudita.

Gaúcho da cidade de Santa Maria, Vergara sempre teve curiosidade de ir a São Miguel, onde uma arquitetura monumental e de pedras daquelas missões ainda resiste, mesmo que em ruínas. Entre 2003 e 2008 ele esteve no local por quatro vezes e trouxe para grandes telas e lenços a "forte vibração" daquele lugar e de sua história - o ensejo político fica, na verdade, guardado numa camada "subterrânea" das pinturas com cores, linhas e texturas feitas com materiais como carvão, pigmentos e resquícios do lugar. "As missões foram o pretexto para as obras", afirma.

Sudário. "A pintura é uma espécie de música sem letra e o olhar, um instrumento pragmático porque a capacidade de ver poeticamente é um esforço intelectual, fruto do raciocínio", diz Vergara. A escala de suas telas na Galeria Bergamin é grande numa referência à arquitetura de São Miguel, mas, mais ainda, porque, como ele emenda, foi sua geração que "começou a ver que tamanho é documento".

O artista as criou a partir de uma técnica que remete ao sudário, ou seja, colocava os pigmentos nos chãos de São Miguel ou os lenços das monotipias nas árvores daquele lugar para depois trabalhar as obras em seu ateliê no Rio - esse processo se vê de forma bela no vídeo que Vergara fez com o cineasta Gustavo Moura. Porosidades, texturas, linhas foram, assim, ganhando mais corpo porque, como ele diz, toda pintura é construção. "Não queria uma coisa histórica, mas poética", afirma Vergara, que atualmente está trabalhando obras sobre a demolição do presídio Frei Caneca do Rio.

CARLOS VERGARA

Galeria Bergamin. Rua Rio Preto, 63, Jardins, tel. 11 3062-2333. Seg. a sex., 11h/19h, sáb., 11h/17h (fecha dom.). Grátis. Até 1º/10.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.