O verdadeiro, o falso e as escolhas morais

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h12

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Na entrevista ao lado, Ken Loach diz que não faz distinção entre comédia e tragédia. E acrescenta que ambas fazem parte da vida. O espectador - o cinéfilo - se acostumou a ver filmes, sérios, dramáticos (e sociais) de Loach. Embora ocasionalmente tenham humor, a comédia é exceção em sua carreira.

Segundo o roteirista Paul Laverty (leia a outra entrevista, abaixo), A Parte dos Anjos nasceu da indignação de ambos pela forma como os jovens são tratados no mundo atual. No reino das economias competitivas, a maioria é descartada. Sem emprego, os jovens tornam-se marginais - quando não são cooptados para morrer na guerra, como no Loach anterior, Rota Irlandesa.

Os jovens de A Parte dos Anjos prestam serviço comunitário para escapar da cadeia. Um deles está prestes a virar pai. Como assumir suas responsabilidades, num mundo que lhe nega espaço? Roubando? O barril de uísque raro faz a diferença no filme. Encontrado por acaso, irá a leilão. Vale uma fortuna.

Você já viu outro tipo desse filme de roubo. Topkapi (de Jules Dassin), Armadilha (de Jon Avnet). Em geral, trata-se de roubar obras de arte de museus. Aqui, não é bem o caso. E nem se trata de fazer desaparecer o galão raro de uísque. Loach e Laverty, mais do que cínicos, estão sendo irônicos. Trata-se, na verdade, de substituir o uísque raro por outro vagabundo. O connaisseur nem vai perceber a diferença e o galão de US$ 5 vai ser vendo por um milhão (de libras!).

Num mundo em que o jovem é desqualificado pela falta de cultura e/ou experiência, Loach expõe os especialistas. Esse mundo globalizado do grande capital se rege por valores falsos. Tudo é fake - aparência. O falso torna-se verdadeiro. Este é o conceito, mas o filme, afinal de contas, não é só um conceito. Ele precisa ter graça, ritmo, originalidade. Como se atinge tudo isso?

Boa parte do humor de A Parte dos Anjos vem da engenhosidade dos jovens. Eles precisam de um disfarce para enganar a polícia - e adotam o kilt, o saiote típico dos escoceses. Precisam arranjar um comprador para o material fino (e raro) de que vão dispor. E existem os imprevistos, como o fato de uma das garrafas... Veja para saber o que ocorre.

Desfrute como o estilo de Loach se adapta às necessidades da trama. Os atores parece que nem representam, mas 'são' os personagens. O ritmo é ágil. Neste registro de cinema realista - a vida como ela é -, ninguém supera Loach. São quase 50 anos de carreira - iniciada com Diary of a Young Man, feito para TV, em 1964. Nestes anos todos, ele aperfeiçoou seu método e, como os bons uísques, ficou melhor com a idade.

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