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O Ventre do Verbo

Maria, mulher do silêncio, do sim, da meditação; mas sempre a mulher da ação corajosa

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

25 de março de 2020 | 03h00

Dia da anunciação: faltam nove meses para o Natal. Para muitos cristãos, hoje é a data em que o Arcanjo Gabriel apareceu a uma jovem em Nazaré e trouxe uma ideia revolucionária: ela seria mãe por força do Espírito Santo. A adolescente terminaria o dia carregando o aguardado Messias prometido pelas escrituras.

Pela tradição, era fim da tarde, por volta das 18 horas. Os textos das escrituras apresentam detalhes distintos. O Evangelho de Mateus apenas se ocupa das dúvidas de José. Sua noiva engravidara. Como proceder? Os avisos dos anjos se voltam a ele e suas angústias. José é orientado dormindo. Sonha que tudo estava de acordo com os planos de Deus. O Jesus do Evangelho de Marcos, o mais antigo de todos, já surge com 30 anos. Nada sabemos da infância por ele. O último Evangelho na ordem e no tempo, João, começa narrando a origem de tudo em prólogo teológico. Lá, o Verbo sempre existiu e se fez carne, referência indireta ao dia de hoje. Porém, ao entrar na narrativa da vida do filho de Maria, já o encontramos como ser poderoso. Lucas, meu preferido, dedica-se a detalhes sublimes. Sem o terceiro evangelista, a narrativa da infância e do Natal seria empobrecida. Lucas, padroeiro de médicos e de pintores, fala da saudação do Arcanjo em frase repetida milhares de vezes entre católicos: Ave, cheia de graça. Ele conta que a jovem conceberá um menino. Mais: o enviado informa que a prima Isabel, que fora chamada de estéril, está grávida de seis meses. A novidade familiar vem por mensageiro celeste.

A Maria de Lucas é quase silenciosa, ainda que disponível. Seu espanto é mais técnico do que teológico: como ela poderá trazer ao mundo o Emanuel se é virgem? A parte central é o sim: livre-arbítrio de uma jovem diante do mistério que a excede. São Jerônimo traduz o sim por fiat, latim para faça-se. O que antecede a anuência da jovem judia é valorizado como humildade pelos cristãos e submissão pelos islâmicos: “Eis aqui a serva do Senhor”. Para quem não sabe, o texto sagrado muçulmano descreve Maria e a anunciação também. No Corão, ela está associada a Zacarias, pai do profeta João Batista, que serve no Templo de Jerusalém. Ela é piedosa e se prostra para o Todo-Poderoso. A tradição oral árabe diz que todos que nascem são tocados por Satanás e choram, com exceção de Jesus, o filho de Maria. Em todo o livro sagrado islâmico, Maria é a única mulher que recebe nome próprio. Outras mulheres recebem atenção, porém ganham títulos e não nomes próprios. A tradição diz que o Profeta purificou a Caaba de todos os falsos ídolos que ali eram adorados, mas ordenou que se conservassem as imagens de Jesus e de Maria no local sagrado. O último concílio católico, o Vaticano II, elogia o respeito dos islâmicos a Maria.

Judia religiosa, cristã exemplar e islâmica submetida de coração aos desígnios do Altíssimo: eis o poder da figura de Maria. Anterior a polarizações teológicas, ela é exemplo de atitude para muita gente. Seu comportamento é exemplar e modelo de fé. Assim como Abraão aceita a promessa e sai da casa do pai sem titubear, Maria não entende, entretanto se entrega a um plano que muda toda a sua vida. A fé é entrega e aceitação, ainda que livre. Abraão vai, Maria diz sim, ambos geram fatos importantes para o futuro. Abraão é pai de três religiões. Maria é mãe de Jesus nas duas maiores fés do mundo. Ambos recebem a mensagem e a aceitam. Abraão ouve o próprio Deus, Maria recebe um mensageiro (sentido grego da palavra anjo). Em hebraico, a solenidade de Deus faz Abraão mudar de vida sem sequer uma palavra, como mudo ficará quando o Todo-Poderoso exigir a vida do seu filho Isaac. Em grego, um mensageiro abaixo da grandiosidade de Deus permite que a jovem ainda faça uma pergunta antes do sim. No futuro, o silencioso e obediente Abraão negociará longamente com o Criador sobre as cidades de Sodoma e Gomorra. A autora da única pergunta, Maria, nunca mais demonstrará dúvida técnica. Abraão aprendeu a dialogar e Maria aceitou a entrega total e as dores que Simeão anunciou que atravessariam seu coração.

Nossa Senhora torna-se a Maria do silêncio, sem dúvida, aquela que guarda e medita as palavras “no seu coração”, porém, cresce como a Maria da ação. Soube, pelo anjo, da prima grávida e idosa. Corre para auxiliá-la. É também ela que fala a Jesus quando o reencontra no Templo, aos 12 anos. Considerando a família patriarcal da Palestina do século 1.º, tomar a iniciativa na frente do pai não foi pouco para uma jovem mulher. É ela que pede a interferência no primeiro milagre, as bodas de Caná. É ela que acompanha o filho até a cruz, quando os homens, com exceção do quase adolescente João, tinham debandado com medo. É ela que está com os discípulos na festa de Pentecostes, nascimento formal da Igreja. Mulher do silêncio, do sim, da meditação; porém, sempre a mulher da ação corajosa.

A face feminina da salvação é fascinante. José, tão importante no início de Mateus, submerge na escuridão da narrativa seguinte. Maria cresce até os Atos dos Apóstolos e, metaforicamente, no próprio Apocalipse, vigésimo sétimo e último livro do Novo Testamento. É a mulher vestida de sol, ostentando uma coroa de 12 estrelas e com a lua debaixo dos seus pés. A tradição católica identifica a mulher do Apocalipse com Maria. A humilde serva do Senhor do Evangelho de Lucas vira a gloriosa dama coroada do livro da Revelação. O feminino de Maria será sempre um terno mistério para as pessoas de fé. Como ela, é preciso ter esperança.

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