O vento do mundo

É uma expressão que li no jornalista H.L. Mencken, "to feel the wind of the world on your face", quando falava sobre a necessidade do jornalista e escritor de ver as coisas por si próprio, de se mexer e viver experiências que não fazem parte de suas origens sociais e/ou geográficas. Muitos escritores fizeram isso, nas mais diversas graduações, e mesmo que perto dos 40 anos tenham se fechado para escrever suas grandes obras - como Proust, Conrad, Montaigne, Machado - foi justamente porque precisavam rever todo aquele material colhido em seus convívios e viagens. Mas não apenas escritores: qualquer pessoa só terá a ganhar se sair de seu mundinho, abrindo a cabeça para outras realidades, ainda que incômodas. Somos condicionados de muitos modos pela criação que tivemos, o que significa que precisamos nos recriar para nos ver melhor; e nada como ter contato com outras classes e culturas para perceber os condicionamentos.

DANIEL PIZA, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

Sempre me perguntam sobre livros ainda não traduzidos no Brasil e, em geral, penso primeiro em alguns de ciência e arte, que até pelo custo acabam sem edição local; mas a literatura de viagem, que me fascina desde que lia ainda criança a revista National Geographic que meu pai trazia, é outro gênero bastante esquecido no mercado nacional. Faltam traduções das principais obras do gênero - de escritores conhecidos mais pela ficção, como Flaubert, Henry James, D.H. Lawrence, Evelyn Waugh e Lawrence Durrell, e dos conhecidos especialmente pelo gênero, como Jan Morris, Peter Matthiesen, John McPhee e Rebecca West. Também faltam iniciativas de produzir literatura de viagem no Brasil, que tem alguns exemplos no passado (Mário de Andrade, Erico Verissimo), mas ainda um manancial infinito de assuntos e endereços. Nem mesmo a Amazônia tem muitos livros de viagem escritos por brasileiros em tempos modernos.

A boa narrativa de viagem não é escrita com facilidade. O escritor precisa vencer boa parte dos preconceitos e fazer um novo encontro entre sua subjetividade e aquilo que objetivamente viu e viveu; precisa combinar o pessoal e o informativo, o ponto de vista e o desprendimento, a crônica e o ensaio. A África, claro, tem sido descrita com esses atributos por muitos autores de viagem, dos quais há alguns livros traduzidos no Brasil, como Ébano, do polêmico jornalista Riszard Kapuscinsky, e O Safári da Estrela Negra, do grande Paul Theroux.

Kapuscinsky viajou décadas por quase todos os cantos da África, e essa coletânea é a melhor introdução a seu trabalho (acusado de ter muitos erros pontuais). Sempre que vejo a dificuldade local de lidar com os horários, me lembro da cena descrita por ele: estava num ônibus há horas, então foi perguntar ao motorista quando afinal ia sair e ele respondeu: "Quando ficar cheio." Theroux conta uma viagem inacreditável que fez: desceu do Cairo até a Cidade do Cabo, nos mais variados meios de transporte, conversando sempre com os habitantes. Há ainda a biografia do explorador e erudito Sir Richard Burton, de Edward Rice, uma narrativa poderosa de sua busca pela foz do Nilo e sua conversão ao islamismo.

Mas não estão disponíveis atualmente nas livrarias brasileiras o relato de Graham Greene sobre a Libéria (Journey Without Maps), o diário de Bill Bryson (African Diary) e muitos outros. Obviamente não me refiro a livros de cartões-postais nem a guias de serviço, que são os que mais encontro nas prateleiras de "travel books" aqui em Johannesburgo. Mas a obras como as de William Thesiger, sobre quem encontrei na Exclusive Books um livro chamado William Thesiger in Africa, com diversas contribuições, inclusive a do cineasta David Attenborough, em saudação a seu centenário.

Thesiger virou lenda com suas viagens e seu estilo; sua obra mais famosa, Arabian Sands, é estudada em todos os cursos do gênero. Mas pouca gente sabe que ele não ficou apenas no Oriente Médio (Arábia, Iraque) e na África árabe. Nasceu em Adis Abeba, na Etiópia (pouco tempo depois de Rimbaud perder sua delicadeza por ali), voltou jovem para a coroação de Selassié (sobre a qual ele e Kapuscinski escreveram livros) e morou também no Quênia, em Maralal, por 15 anos. Lá teve uma casa no vale dos samburus, que adotaram aquele sujeito magro, alto e branco educado em Oxford. Como um Lawrence da Arábia longe da guerra e espionagem, preferia a vida dura e simples junto a camponeses, com quem apreciava caçar leões e elefantes. Esteve também no Sudão, Marrocos e Tanzânia e, com uma Leica, fez belas fotos de paisagens e costumes.

O que deixou acima de tudo foram os textos, escritos numa linguagem direta e rica, pois nunca achou - como alguns no Brasil - que escrever bem é substituir "estalar os dedos" por "artelhos". Veja: "Na minha primeira noite no campo, enquanto me sentava para comer sardinhas de uma lata e observar os somalis guiando seus camelos do rio para as tendas, eu sabia que não queria estar em nenhum outro lugar nem por todo o dinheiro do mundo. Por um mês viajei numa terra árida e hostil. Estava sozinho; não havia ninguém a quem pudesse consultar; se tivesse problema com as outras tribos, não teria ajuda; se ficasse doente, não haveria um doutor para mim. Os homens confiavam em mim e me obedeciam; eu era o responsável por sua segurança. Estava frequentemente cansado e sedento, às vezes com medo e solidão, mas saboreava a liberdade e um modo de vida que jamais teria volta."

Você pode não querer estar em sua pele, mas sente o que seria estar. Eis o que fazem os melhores escritores de viagem.

Rodapé. As livrarias de Johannesburgo têm pilhas e pilhas de livros sobre Nelson Mandela. Biografias, reportagens, depoimentos; todas as faces e fases da sua história são abordadas. Mas há também um bom número de livros sobre a África do Sul pós-Mandela, sobre os inúmeros problemas políticos, econômicos e sociais que ainda afligem o país.

O mais ácido é R.W. Johnson em South Africa"s Brave New World, um catatau que centra fogo sobretudo na política de cotas, conhecida como "Black Economic Empowerment" (BEE), que estipula mínimo de 50% de funcionários negros para empresas nacionais. Muitas empresas se dividiram e foram vendidas para estrangeiros. Johnson, jornalista inglês radicado em Cape Town, alega que isso fomentou a desindustrialização da economia, ainda sustentada pela exploração de minérios, e criou a ilusão de que na educação é possível dar saltos, já que a baixa qualificação tirou também competitividade dessas empresas.

Outro jornalista inglês, Alec Russell, que hoje vive em Londres e foi correspondente do Financial Times em Johannesburgo, também destaca a questão racial em seu After Mandela. Conta histórias de conflitos significativos, como em greves e crimes, mostra a dificuldade de políticos brancos liberais em angariar o voto dos negros, critica o governo Zuma por sua demagogia centralizadora. Mas não é pessimista: "Essa é a principal esperança para a África do Sul: que o veneno do apartheid possa ser constantemente diluído com o passar dos anos e que, depois de um período de cooperação séria, futuras gerações possam de algum modo crescer livres dos preconceitos que dividiram o país por tanto tempo. Mas vai levar muito tempo até que isso aconteça."

A Copa do Mundo tem mostrado que existe uma disposição para o convívio, calcado no símbolo de Mandela, mas um evento esportivo não muda um quadro social. Muitos acham que, quando Mandela morrer, as minorias ressentidas vão causar problemas. O próprio Mandela fez a frase definitiva sobre isso tudo, que serve de alerta para qualquer sociedade que acha que tudo está bem e o paraíso logo ali: "A única coisa que se encontra depois de escalar uma montanha são mais montanhas para escalar."

O tempora, o mores. Não adianta. Aonde quer que se vá, os livros mais vendidos são de Stephenie Meyer e Stieg Larsson, o DVD mais alugado é Avatar, no frio todas as mulheres usam bota por cima do jeans, e as celebridades mais comentadas se chamam Beyoncé, Shakira e Lady Gaga.

Por que não me ufano. Quando escrevi que a tendência era que Dilma Rousseff crescesse nas pesquisas, tucanos se queixaram e, quando José Serra oficializou a candidatura, acreditaram numa reação. Mas a campanha do PSDB não consegue nenhum mote próprio, enquanto Dilma segue no ombro de Lula empurrado pelo ritmo chinês da economia. Serra fala de corrupção, loteamento, etc., como se apenas o governo Lula tenha conservado essa velha tradição oligárquica (o PT tem lá seus métodos peculiares, mas o resultado é muito parecido). Infraestrutura e capacidade administrativa, por mais postiças, são bandeiras que Dilma também pode empunhar. Especialistas disseram que, por não ter tido nenhum voto na vida, ela jamais seria eleita. Agora estão tão paralisados quanto as urnas.

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