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Ignácio de Loyola Brandão
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O velho esqueleto continua firme e forte

No (colégio) Progresso, aprendi a ser educado, cortês, a tratar os outros como iguais

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2019 | 03h00

Aos 8 anos de idade sofri o primeiro bullying de minha vida. Viriam outros que, dependendo da situação, eu tiraria de letra. Naquela manhã dos anos 40, estudantes mais velhos me empurraram por um corredor mal iluminado do porão do Colégio Progresso de Araraquara, me conduziram até uma porta e saíram correndo. Olhei para dentro da sala e na obscuridade vislumbrei o esqueleto, um dos elementos das aulas de ciências. Fiquei paralisado. A morte, um fantasma. Nem conseguia correr nem tirar os olhos daquele conjunto de ossos. 

A caveira, o sorriso. Apavorante, mas também irônico, insolente, cheio de desdém. Passo a passo me afastei de costas até chegar ao pátio. Corri ao bebedouro, tomei um litro de água. Ao voltar à classe, a professora me fez uma pergunta. Era meu primeiro dia, primeira aula. Tímido ao extremo, encabulei. Escondi o rosto entre as mãos e ouvi a voz estridente de Maria Luisa, filha de um dentista: “A menininha não sabe, a menininha não sabe”. Raivoso, pensei: nunca mais volto à escola. Mal sabia que estava conhecendo a vida, as pessoas. 

Tinha acabado de ganhar uma bolsa de estudos para o Progresso, o melhor da cidade, que me foi dada pela Emilia Albertini, então diretora. A irmã de Emilia, Daysi, foi minha professora ali, doce criatura. Hoje, com o sobrenome Padula vive em Rio Claro. Ela soube de minha carreira, certa vez fiz uma palestra naquela cidade, ela estava presente. 

Vieram depois a Noemi e a Wanda, esta célebre por jogar os longos cabelos negros para trás, em um gesto sensual, enquanto exclamava, “mas que coisa louca!”. Mais tarde, associei Wanda à Veronica Lake e à Rita Hayworth, superstars hollywoodianas. Aquele gesto teatral, dramático e a fala impressionaram demais a mim e ao Zé Celso Martinez Correa e até nos marcaram. O que era “louca” para ela? 

Ali tive também aulas com Ruth Segnini, viva até hoje. Dela e de Lourdes Prada, de uma pequena escola particular, recebi os fundamentos da escrita e do jornalismo, aprendi a escrever como escrevo hoje. No Progresso, também aprendi a amar o cinema. Havia de tempos em tempos uma projeção de filmes no refeitório das internas. Eram curta-metragens, documentários, vidas de santos, desenhos. A imagem e a paixão pelas imagens me levaram a me tornar crítico, jornalista, escritor. Nesta escola aprendi sobre igualdade e desigualdade social. Na minha classe estudava Marilu Morganti, filha do milionário Hélio Morganti, usineiro de açúcar (Tamoyo) e mecenas das artes. E também Maria Helena Vieira, filha de outro ricaço dono de uma loja de departamentos e de uma chácara que vendia mudas de frutas e flores para o Brasil. E Terezinha Lara, cuja casa era uma mansão imponente, próxima ao Largo da Câmara, mais tarde transformada em hospital, onde morreu minha mãe em 1968. Classe mista, sentávamos todos perto, Marilu me emprestava livros incríveis que os pais dela traziam de São Paulo, como os Melhores Contos de Fadas, da Editora Vecchi. Maria Helena trazia lanches que me pareciam deliciosos, sanduíches de presunto e me dava frutas. Esta foi minha formação. A igualdade “desaparecia” na hora da saída, carros vinham buscar Maria Helena e Marilu, enquanto o restante ia a pé. Curioso, não havia inveja, ressentimento, ciumeira. Assim era o mundo.

No Progresso, aprendi a ser educado, cortês, a tratar os outros como iguais. Aos sábados, distribuíam medalhas para os mais bem comportados durante a semana. Uma cerimônia com todos perfilados. O Zé Celso me cochichava: “No sábado em que você ganhar medalha, nunca mais falo com você.” Era a nossa revolta, a geração “transviada”. Só que ele ganhou uma, porque era o sonho de nossas mães, católicas a mais não poder, e o assunto morreu. 

Se houve coisa que jamais consegui fazer foi desenhar bem. E, no entanto, acreditem: ganhei um prêmio de desenho em 1945. No final da 2.ª Guerra, houve um concurso promovido pela Embaixada da França no Brasil com o tema: Como você vê Paris Libertada? Não é que fui um dos vencedores? Chegaram dois livros: As Esposas do Barba Azul e Pinóquio. Adorei Pinóquio, a cena no interior da baleia é fantástica. A tradução de Marina Colasanti, hoje, é um primor.

Passaram 75 anos e acabei de reencontrar quem? Nada mais, nada menos que o esqueleto do Colégio Progresso. Aquele que depois me fez adorar filmes de terror. Há duas semanas, o Progresso, que chega aos 95 anos, realizou uma jornada de literatura e ciências. Chamado, voltei. O prédio, hoje tombado, está igual, inteiro. Senti falta das mangueiras do pátio, mas elas envelheceram e foram se acabando. A maior, mais grossa, feneceu, mas mantiveram um pedaço do tronco, coberto por um quiosque. Éramos proibidos de atirar pedras para derrubar mangas, mesmo assim fazíamos. 

Percorri salas e corredores, reconheci os lugares, há coisas que permanecem. Fui revendo meus fantasmas familiares e assim cheguei a uma escada que antigamente dava acesso ao dormitório das internas, absolutamente “proibido” para nós. Olhei a escada, virei-me... e dei com ele. O esqueleto. Ali estava, não posso dizer que mais magro, mas com o mesmo riso amarelado zombeteiro. Mas os alunos tinham colocado dentro dele um cordão de lâmpadas led e os ossos brilhavam alegres. Não sei se me reconheceu, afinal tanto tempo passou. Tirei fotos abraçado àqueles velhos ossos. Poderia dizer: não é que o velho esqueleto continua vivo? Dali segui para o anfiteatro e ao terminar minha fala indaguei: “Quem sabe daqui deste meu colégio saia outro acadêmico da Brasileira no futuro?” A vida traça alguns pontos e depois une tudo.

PS: Ah, o pior bullying de minha vida foi a proibição de meu romance Zero, em 1976, aos 40 anos, em plena ditadura militar.

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