O velho e os gatos (de 6 dedos)

O governo federal americano resolveu "tombar" os gatos de Ernest Hemingway e transformá-los em patrimônio nacional.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2012 | 02h06

São 50 gatos herdeiros legitimados em testamento pelo Prêmio Nobel de 1954, estrelas de livros como Hemingway's Cats (Pineapple Press), que moram no 907 da Whitehead Street, em Old Town Key West, pequena ilha cercada pelo mar azul-turquesa da Flórida, na antiga casa feita de pedras nativas. Hemingway viveu de 1931 a 1940, bebeu e escreveu neste sobrado em estilo colonial espanhol pé na areia cercado por um jardim tropical e decorado por móveis antigos e animais empalhados (não gatos), hoje The Ernest Hemingway Home & Museum.

Alguns dizem que foi o período mais produtivo do autor de O Velho e o Mar, inventor do romance moderno que embola vida pessoal e ficção permeada por diálogos que causam efeitos na narrativa. Imitado por muitos de nós. Por mim, com certeza. Escrevia em pé na companhia de gatos de seis dedos. Normalmente eles têm cinco dedos na frente e quatro atrás.

Foi o capitão de um barco de Boston quem presenteou Hemingway com um gato da raça Maine Coon branco de seis dedos, Snowball. O bichano tendo em quem se inspirar achou que Key West era sempre uma festa e saiu espalhando o sêmen e o problema genético conhecido como polidactilia, depois de golinhos de leite e sobras de rum.

Hoje, os herdeiros são tratados e vacinados pelo veterinário Edie Clark e cercados por uma tela inclinada para dentro para impedir a fuga. A companhia farmacêutica Pfizer garante remédios para o bem-estar dos felinos, livres de pulgas e outros parasitas. A contrapartida é que os usa em anúncios.

Hemingway dava nome de pessoas famosas a seus gatos, como Picasso e Simone de Beauvoir. A tradição é seguida. Quer apostar que tem um Roth lá, gato velho e tarado, resmungando de dores no reto?

Se Snowball vadiou bastante pela ilha, calcula: os gatos que vivem lá e são tombados são da décima geração dos que se enrolaram pelos pés de Hemingway, ronronaram para ele, passearam entre seus papéis e lamberam seus beiços lambuzados de mojito. O velho Roth é pra lá do octaneto do escritor.

Não conheceram "Papa", no entanto exercem um fascínio peculiar. Fãs, leitores e turistas em busca dos cruzeiros caribenhos dão uma paradinha para vê-los. Lá estão os tataranetos dos tataranetos daquele mulherengo beberrão que gostava de caçar, pescar e de touradas, lutou em três guerras e deu um tiro de fuzil na boca.

Melhor blindar os peludos da ira dos flashes.

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Gatos domésticos vivem mais que os de rua, que morrem em brigas de gangue, xavecando felina do vizinho, em atropelamentos, envenenamentos, viroses e ataques de predadores, como fabricantes de tamborim e vendedores de churrasquinho de origem desconhecida. Sem contar que ninguém sai com uma seringa na mão procurando bichanos arredios para colocar a vacinação em dia. Dos felinos.

Vivem de 6 a 8 anos, enquanto seus colegas caseiros de 12 a 15 anos. É como comparar um homem solteiro-boêmio com um casado-caseiro. Gatos podem desenvolver doenças renais, cardíacas, diabetes, câncer, entre outras. Como nossos amigos que costumam fechar bar.

Castração traz vantagens aos bichinhos, já que muitas viroses, inclusive uma tal aids felina, são transmitidas sexualmente e pelo sangue, contágio que acontece em brigas e acasalamentos. O veterinário Diego Farjat diz que um gato alimentado, castrado e vacinado corretamente pode viver até 30 anos.

Sou do tempo em que comida do gato era pires com leite C, sobra do almoço, evitando-se osso de galinha que, diziam, entala, e sardinha em dia de feira.

O ideal hoje é ração específica para a raça, idade, peso e ambiente. Pode ser diet, natural, orgânica, para abaixar colesterol, queda de pelo, seca, molhada, premium, superpremium, para gatos com propensão a obesidade e diabéticos, com problemas renais crônicos, pelo longo ou para prevenção de recidivas na urolitíase. E, aprendi na marra, apesar de adorarem derivados do leite, eles não o digerem bem, ficam enjoados e têm diarreia. Eu ainda dava sobras de Activia aos meus coitados.

Gatos polidácteis foram no passado associados a bruxaria e eram mortos. No entanto, como trevos, pés de coelho, ferraduras, eram considerados sinais de boa sorte por marinheiros. Como esse dedo a mais da polidactilia não é usado, a unha a mais não é gasta, pode crescer muito e, por causa da curvatura, entrar na pele. Eles têm mais dificuldades em aprender a andar. Quem já tomou um porre daqueles sabe como é.

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Foi John Dos Passos quem apresentou Key West a Hemingway. O amor e ódio entre os amigos que participaram juntos da Guerra Civil Espanhola e depois nunca mais se falaram é um dos plots do telefilme Hemingway & Gellhorn, que não entrou em cartaz, só passou na HBO.

Filme decepcionante do grande Philip Kaufman (Os Eleitos), que usa imagens reais do conflito espanhol e fala do romance entre Hemingway (Clive Owen) e a correspondente de guerra Martha Gellhorn (uma Nicole Kidman deslumbrante), que virou sua terceira mulher, os debates sobre os rumos da revolução e a influência soviética, o caso dúbio entre John Dos Passos e o herói republicano Paco Zarra, vivido pelo nosso Rodrigo Santoro. A casa e os gatos de Key West aparecem.

Muitos filmes históricos hoje em dia parecem baseados no Wikipédia. Este é mais um, que se perde em reducionismos. Como a bronca que Ernest dá na mulher: "Escreva com o coração!". Eles transam ardentemente no hotel que é bombardeado. Tá bom. Era um bêbado insaciável ou um idiota?

É o terceiro telefilme de três horas e dividido em três partes que assisto nesse ano na TV: a maravilhosa produção franco-alemã Carlos, de Oliver Assayas, sobre o terrorista Carlos O Chacal (ganhou o Globo de Ouro e até o Prêmio da Crítica da Mostra SP), Hatfields & McCoys, produzido pelo History Channel, drama shakespeariano demorado que fala da guerra entre dois clãs antes unidos na Guerra da Secessão (Kevin Costner ganhou o Globo de Ouro de melhor ator), e Hemingway & Gellhorn.

O gênero não é telefilme, não é série, que costuma ter oito (Veep), dez (The Newsroom) ou 13 episódios (a maioria delas), é exclusivamente para a TV e dividido em três partes. Pelo jeito, uma nova tendência do veículo que sempre se renova. Aí, tem...

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