O valor do tempo em questão

De recorte político, Time/Bank reflete sobre autonomia na Documenta 13

CAMILA MOLINA, ENVIADA ESPECIAL / KASSEL, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h10

Por todo o parque Karlsaue de Kassel estão espalhadas 52 obras da Documenta 13. Algumas ao ar livre, mas grande parte delas abrigada em pequenas casas de madeira construídas especialmente para a exposição. "É bonito estar aqui, mas são muitos artistas. É como se tivesse bastante comida na mesa de banquete, mas sem espaço para a sobremesa", diz a artista mexicana Julieta Aranda, que participa da seção da mostra no Karlsaue com o trabalho Time/Bank, criado em parceria com o artista, curador e escritor russo Anton Vidokle.

A casinha dos dois na Documenta 13 é colorida, estampada de pôsteres. Dentro dela, a instalação tem um ensejo político de tratar modelos de uma economia alternativa em tempos de crise. "Não é um trabalho sobre dinheiro, mas sobre o valor, sobre autonomia", afirma Julieta.

O projeto Time/Bank foi iniciado pelos dois artistas em 2007, "antes do colapso de 2008", contam. "Naquela época, estávamos pensando: E se fosse tudo diferente? Com a crise, o trabalho ficou mais urgente", afirma Julieta Aranda, que, em setembro, vai fazer sua primeira individual em São Paulo, na Galeria Marilia Razuk. Na obra que ela e Vidokle apresentam em Kassel, vemos, no primeiro cômodo da casa, vitrines e gaveteiros que trazem o material de pesquisa para a obra, como o The Gosaba Experiment, um sistema "pioneiro" de crédito cooperativo criado em 1930 por Daniel M. Hamilton.

Há ainda cédulas do Zimbábue e da Colômbia ao lado de um Disney Dollar, livros de referência, mas ainda recriações dos dois, como um vídeo exibido em outra sala, sobre o valor do tempo. "Este já é um projeto permanente, que se transformou em uma rede", ressalta Anton Vidokle. Os artistas, que trabalham juntos há 10 anos, foram convidados pela diretora artística da Documenta 13, Carolyn Christov-Bakargiev, justamente a participar do evento com a exibição de Time/Bank. "Nada nos foi falado sobre o tema da mostra, acho que essa Documenta, provocativa, não tem conceito. É de trabalho por trabalho", afirma Julieta Aranda.

Andando ainda pelo simétrico e grande Karlsaue, criado por volta de 1570, poucas são as obras que carregam uma potência. A ítalo-brasileira Anna Maria Maiolino é uma exceção, já que usou uma casa real do parque para instalar Here&There e os sons de pássaros brasileiros, no lado exterior, reverberam por uma área de forma, no mínimo, instigante. Quem diria que poucos metros adiante, estaria um Sanatorium, trabalho do mexicano Pedro Reyes. "Somos 20 terapeutas e os agendamentos para as sessões podem ser feitos a cada 30 minutos", conta Cloe Schaller, uma francesa que "na vida real", como lembra, é estudante de arte, mas que até o fim de junho é uma das terapeutas do sanatório da Documenta 13.

"As pessoas estão gostando, está indo muito bem", ela afirma - entre as atividades promovidas, há uma sessão em que o visitante pode se tornar o curador de sua vida, outra, de meditação, e uma que se tornou a mais requisitada, Goodoo. "É o contrário de vodu", explica Cloe - o visitante recebe um boneco que representaria a pessoa mais querida por ele.

Na dispersão dos projetos abrigados no Karlsaue - com trabalhos ainda de grandes artistas como Janet Cardiff, Joan Jonas, Anri Sala e Akram Zaatari -, a árvore também se torna uma pequena recorrência. Em Idea di Petra, o italiano Guiseppe Penone apresenta uma grande árvore feita em bronze que carrega no alto de seus galhos uma gigantesca pedra - é um trabalho monumental, instalado em Kassel em 2010.

Já o americano Jimmie Durham plantou, em 2011, uma muda da "maçã negra" do Arkansas no parque - e logo ao lado, a própria curadora da Documenta 13 também fez a mesma ação com a "maçã korbiniana" em referência às naturezas-mortas de Korbinian Aigner (1885- 1995), o "apple priest", como ele era chamado no campo de concentração de Dachau, e que tem agora, no museu Fridericianum, uma sala generosa com os desenhos em que representa, de forma obsessiva, a fruta que ele próprio cultivava.

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