'O uso do silêncio me encanta'

A atriz, cantora e compositora Sandrine Kiberlain curte o sucesso de Mademoiselle Chambon

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

"Maman maman, c"est le journaliste brésilien", a vozinha infantil ressoa do outro lado da linha, em Paris. "Mamãe, mamãe, é o jornalista brasileiro." Sandrine Kiberlain atende ao telefone. São 20 horas na França e ela pede um minuto para atender a filha. Sandrine faz o papel título de um filme que está encantando o público paulistano. Mademoiselle Chambon foi lançado pequeno, mas o boca a boca tem feito lotar as sessões da Reserva Cultural. O público, em geral, sai em êxtase da sala, falando maravilhas da história de amor entre Sandrine e o personagem interpretado por Vincent Lindon.

Ele é um grande ator e, no ano passado, na própria Reserva Cultural, multidões assistiram a outro filme francês que também virou cult na cidade, Welcome (Bem Vindo), de Philippe Lioret. Sandrine não é menos expressiva e também já fez filmes de sucesso - Cyrano de Bergerac, com Gérard Depardieu -, mas talvez seja menos conhecida no Brasil. Na França, além de comédienne (atriz) é também cantora, e de sucesso, embora não se considere como tal. "Sou atriz, mas sempre tive vontade de cantar. Acontece que, para isso, teria de compor minhas músicas. Não queria cantar as dos outros. Foi o que fiz. O sucesso superou toda expectativa que pudesse ter. O álbum - La Chanteuse -vendeu bem, ganhei prêmios, fiz shows em toda a França. Agora me cobram outro disco, mas já passei por minha experiência. Talvez, no futuro, queira compor e cantar de novo. Agora, não."

Agora, ela está exclusivamente atriz e, além de Mademoiselle Chambon, em breve estará nas telas brasileiras em outro filme, de novo no papel de "maitresse", professora, mas a ambição será outra. Mademoiselle Chambon, de Stéphane Brizé, é um pequeno grande filme sobre sentimentos. O Pequeno Nicolau, com o personagem dos livros de René Goscinny e Sempé, é, como diz Sandrine, "um patrimônio francês". Mademoiselle Chambon é a professora do filho de Vincent Lindon. Ele trabalha na construção civil. Apesar das diferenças culturais - ela toca violino, ele se encanta ao vê-la manusear o instrumento -, sentem-se atraídos, mas é um romance condenado, complicado. A outra professora, de O Pequeno Nicolau, segue um figurino mais tradicional, mas Sandrine está contente de encarnar a personagem.

"Foi um filme que minha filha pôde ver e, com ela, mais de 5 milhões de espectadores na França." Ela não comemora apenas os números do filme de Laurent Tirard. Alegra-se porque O Pequeno Nicolau, exibido na favela do Vidigal, no Rio - durante o Festival Varilux de Cinema Francês - , foi aplaudido por uma plateia infantil diferente da francesa. "C"est super", diz, colocando ênfase no ÉR. "Que o filme encante os franceses é de se esperar. Nicolau (o personagem) faz parte das nossas tradições culturais. Que tenha encontrado seu público no Brasil é maravilhoso. Laurent (o diretor) deve estar eufórico. É a prova de que nosso Nicolas é universal."

Para ela. Sandrine conta que não vacilou ao receber o roteiro de Mademoiselle Chambon, acrescido de uma pequena nota do diretor - "Pour toi" (Para você). "Conhecia os outros filmes de Stéphane, Je ne Suis Là pour Être Aimé e Entre Adultes, Não Estou Aqui para Ser Amado e Entre Adultos. Eram bem escritos e realizados, mas acima de tudo me passavam uma sensação de urgência, a vontade dar um testemunho sobre as relações do casal contemporâneo. Tenho a impressão de que ele aprofunda isso em Mademoiselle Chambon." O repórter observa que o filme é sobre nada, mas termina abarcando tudo. "É justamente isso", ela acrescenta, entusiasmada.

Pequenos gestos, silêncios mais do que palavras, aproximam a professora e o operário e, quando se dão conta, já estão envolvidos. "O valor que Stéphane atribui ao silêncio foi o que mais me encantou, desde o começo. É fácil ser explicativo falando, mas mostrar a aproximação de duas pessoas que quase não se falam exige muita delicadeza e gestos muito precisos. Tudo estava meticulosamente escrito no roteiro, até os silêncios. Vincent (Lindon) e eu só tivemos de seguir as indicações de Stéphane." Ambos os personagens trabalham muito com as mãos. Ele é operário, ela toca violino. "Foi a parte mais difícil. Tive de treinar bastante. Não queria simplesmente simular. Não estaria servindo à personagem." Sobre a peça de Edward Elgar, diz que é "maravilhosa".

E a relação com Vincent? "Já o conhecia, sempre fui uma admiradora do seu trabalho. Vincent é muito focado. Não precisávamos de muito para nos concentrar. E ambos somos rápidos. Não gosto de ficar repetindo as cenas, exceto por problemas técnicos. É melhor quando a emoção vem de primeira, mas Stéphane exigia justamente que a gente não se emocionasse demais. "Menos" era seu lema." Menos, neste caso, para atingir mais. Nada para representar tudo. O belo dessa história é que ela carrega uma tristeza. Os personagens certamente sofrem por estar separados, mas eles também sofrem quando estão juntos, porque Lindon está comprometido, inclusive afetivamente, com a mãe de seu filho. A situação lembra um pouco As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur), que Agnès Varda fez nos anos 1960. "Mais justement. É isso que faz a universalidade dessa história. Aonde vou, as pessoas me falam com carinho de Mademoiselle Chambon." Sandrine acha ótimo que exista público no Brasil para um filme tão delicado. "Não sou contra blockbusters, mas acredito que esses filmes são fundamentais. O cinema não é só diversão. No limite, são esses filmes humanos, intensos, que ficam com a gente."

TRÊS RAZÕES PARA......assistir e se emocionar com o filme

1.O nervosismo que precede a primeira audição de Elgar ao violino pela professora e o encantamento que produz no operário. Sandrine Kiberlain e Vincent Lindon são ótimos na arte de revelar pouco para sugerir muito.

2.A paisagem. O diretor fez questão de situar sua história numa cidade pequena e ensolarada.

3. O desfecho, que o espectador intui qual será, mas é tão bem filmado e interpretado que dá ao público a impressão de estar vendo um instante de documentário, roubado à realidade.

MADEMOISELLE CHAMBON

Direção: Stéphane Brizé. Gênero: Drama (França/2009, 101 minutos). Circuito: Cine UOL Lumière, Reserva Cultural. Censura: 12 anos.

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