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O urso e a cadelinha

CDA não dava entrevistas, mas topou falar a Suzi, repórter com bom faro e quatro patas

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

26 de março de 2019 | 02h00

Foi no começo dos anos 70, época em que Carlos Drummond de Andrade não se deixava entrevistar nem mesmo por moça bonita. Marmanjos, então, podiam tirar o cavalo da chuva. Fazia tempo que o poeta, nos versos irritados, mais que isso, exasperados de “Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz”, se declarara um farpado “urso polar”: “Sou o Velho Cansado/ que adora o seu cansaço e não o quer/ submisso ao vão comércio da palavra”. O que tinha a dizer, repetia, estava dito em seus poemas e crônicas. Que lhe dessem sossego, portanto: “Poupem-me, por favor ou por desprezo”, rogou, “se não querem poupar-me por amor”.

E eis que em 1973, no auge do mutismo midiático de Drummond, se anuncia que ele havia aberto improvável exceção para alguém de nome Suzi. Suzi, só isso, nenhum sobrenome – distintivo genealógico que a felizarda, de resto, não poderia ter, por não ser possuidora de um pedigree. Sim, a repórter que conseguiu a façanha de arrancar aspas do mais recluso de nossos poetas era uma cadelinha, muito provavelmente vira-lata, mas nem por isso isenta de excelente faro jornalístico. Chegou a ele por delegação de Lya Cavalcanti, outra habilidosa perguntadeira, que nos anos 50 arrancara de Drummond, em sucessivos papos ao microfone da Rádio Ministério da Educação e Cultura, as confissões autobiográficas que bem mais tarde vieram a compor o livro Tempo Vida Poesia

Lya Cavalcanti se notabilizou numa luta apaixonada pelos bichos, militância da qual dá conta um belo livro, Meu Diário de Lya, de Elvia Bezerra, hoje coordenadora do setor de literatura no Instituto Moreira Salles. Essa “louca admirável”, como a chamou Edmílson Caminha, era amiga do poeta, e docemente o arrastou para sua cruzada em defesa dos animais, peleja que a fez recolher nas ruas do Rio e albergar em sua casa cães abandonados – em dado momento, nada menos de 80. Lya não chegou a reclamar do fato – relatado por Drummond em seus diários – de que, não havendo ali um poste, a fauna doméstica não hesitou em se aliviar na parte baixa da geladeira, rapidamente corroída pela urina.

Em outubro de 1970, Lya propôs ao poeta a criação de um jornal. Para que, se já existem tantos? – ponderou ele. Mas não há nenhum empenhado na divulgação do ponto de vista dos bichos, esclareceu ela. Como isso seria possível, argumentou o amigo, se os animais não falam? – e, no momento seguinte, se rendeu sem restrições, e até mesmo com “assanhamento”, confessará, à ideia de um jornalzinho mimeografado que se chamaria, exatamente, A voz dos que não falam. Lya nem precisaria ter reforçado o convite com um apelo em versos: “Please, meu caro poeta,/ deixa de ser um empata/ e com seu dedo de esteta/ faz o que pede esta chata”.

Com 8 páginas, a publicação fez sua estreia em 4 de outubro de 1970, não por acaso dia de Francisco de Assis, o padroeiro dos animais, homenageado, na primeira página, com um poema escrito para a ocasião, Conversa com o Santo. Nos versos finais, roga-se a São Francisco que retorne urgentemente ao mundo, “para ver se dá jeito nestes seus alunos repetentes” – os chamados animais racionais, nem por isso capazes de respeitar os bichos. 

A “conversa” da cadelinha Suzy com Drummond aconteceu três anos mais tarde, e veio precedida de declaração inflada de orgulho editorial: servia-se aos leitores “uma entrevista exclusiva com o autor que não dá entrevista nem para o Pasquim”, trombeteou A voz dos que não falam

Bem escorada nas quatro patas e num bom preparo jornalístico, a repórter fez ao poeta meia dúzia de perguntas. Uma delas: teria o bicho homem direitos exclusivos ao planeta Terra? “Não”, respondeu o entrevistado: “Do seu direito à coexistência com as outras espécies animais, o que lhe advém é, antes, a responsabilidade pela sorte dos mais fracos e menos evoluídos”. Que entende você por mundo-cão? “Entendo um mundo tornado cruel pelo homem e não pelos outros seres vivos.” Que bicho gostaria ele de ser, se não fosse homem? “Eu não gostaria de ser bicho e ter de defender-me da agressividade dos não bichos.”

Fechando a conversa, Suzy não conteve sua admiração pelo entrevistado – e, como quem joga um osso com bastante carne, lhe fez uma proposta: “Gostamos muito da sua poesia, achamos você um sujeito muito bacana e muito compreensivo, e por isso gostaríamos de nomeá-lo nosso filósofo oficial. Você aceita?”. 

Polidamente, o poeta declinou da oferta: “Obrigado. Mas o melhor é vocês dispensarem a filosofia e continuarem simplesmente integrados na natureza – coisas que nós, supostamente superiores, raramente sabemos fazer”.

Nada foi perguntado a Carlos Drummond de Andrade a respeito de sua relação com os bichos, marcada, na infância, em Itabira, por dois incidentes, significativos o bastante para merecerem registro em versos, e que poderiam tê-lo afastado definitivamente do trato com os animais. Drummond e os bichos é assunto para a próxima vez, se houver.

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