O universo de Borges

A publicação, no Brasil, de Ficções, obra-prima do portenho e referência da narrativa do século 20,foi saudada pelo caderno

Paulo Rónai, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

Depois de ter dado a volta do mundo, a obra de Jorge Luis Borges está finalmente chegando ao Brasil. Após Nova Antologia Pessoal, lançada pela Editôra do Autor, acaba de sair Ficções aos cuidados da Editôra Globo. Esperadas com impaciência, permitem ao leitor brasileiro um primeiro contato com uma das obras mais estranhas e mais pessoais da nossa época.

Educado na Europa, dono de vasta cultura humanística, Borges não esconde que a sua vida foi consagrada antes a ler do que a viver. A paixão da leitura é o solo em que mergulham as raízes da sua ficção, extremamente livresca, mas sacudida por uma vibração constante. A sua imaginação diverte-se em inventar livros esquisitos, e os autores dêsses livros, e as aventuras dêsses autores a influírem indiretamente na vida de outras personagens. Aderindo à linhagem de ilustres mistificadores, como Macpherson ou Mérimée, faz-se o biógrafo e o bibliógrafo dêsses fantasmas que integra, por meio de remissões eruditas e referências cruzadas, no universo literário. Mas, depois de apoiar as suas invenções em fatos reais e documentados, desencadeia uma ação tôda íntima, impassível de verificação e empolgante ao mesmo tempo.

Avêsso à composição de romances maciços em redor de uma idéia para cuja exposição oral bastam poucos minutos, o nosso autor prefere simular que êsses romances já existem e apresentar um resumo, um comentário dos mesmos. Daí, talvez, a densidade excepcional de seus contos (...).

Mestre do gênero, cultiva-lhe tôdas as variantes - o apólogo, a parábola, a fantasia, a lenda, o conto de mistério, o fantástico, o policial, o simbólico, o filológico - tôdas, menos a humorística. A ação encobre sempre outra, que aponta no fim da história e se entrelaça com a primeira do modo mais inesperado; e as duas, juntas, encobrem um sentido oculto.

No Prólogo da Nova Antologia Pessoal, Borges assinala os seus temas preferidos: "a perplexidade metafísica, os mortos que perduraram em mim, a germanística, a linguagem, a pátria, o paradoxal destino dos poetas". Poder-lhes-iamos acrescentar a cabala, a mística, a metempsicose, e indicar alguns de seus motivos principais: as formas geométricas, assim como os espelhos e os labirintos, realidades ambíguas que são a sua obsessão e influem sôbre a estrutura de suas narrativas. (...)

Em muitos contos nota-se a interseção de vários planos. A história de um crime recebe luz nova de dois mil anos de pesquisas teológicas. A biblioteca de Babel materializa a idéia do infinito. A loteria da Babilônia, com suas constantes inovações; acaba por engolir o Estado e por se substituir ao Destino.

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