O universo da cultura cigana transpira na peça <i>Savina</i>

Caem as luzes e uma música típica do universo cigano sai do acordeom do compositor Mintcho Garramone. Um foco de luz sobre a mesa do bar onde se encontram os companheiros Vasila e Klebari que, em meio a muitas gargalhadas, conversam animadamente em sua língua oficial, o romani. Uma dança que expõe toda a força e o mistério que envolvem esse universo ainda desconhecido para nós. A companhia Amok partiu do ritmo e da melodia dos Rroms (homens ciganos, em romani) para desenvolver seu mais novo trabalho que acaba de estrear em palco paulistano, Savina, que estará em cartaz no Sesc Santana somente até 1.º de abril. O caminho encontrado para nortear o trabalho do grupo foi o conjunto de obras do espanhol Mateo Maximoff, cigano nascido em Barcelona que não chegou a freqüentar escolas formais e deu início à sua produção quando preso após uma briga fatal entre duas famílias. "Queríamos conhecer os ciganos pelos próprios ciganos. Pesquisamos durante um ano e no meio do processo descobrimos a importância de Maximoff", conta a diretora Ana Teixeira, que idealizou o espetáculo ao lado do ator Stephane Brodt. O texto da peça é resultado dos estudos dos títulos mais significativos do autor cigano morto em 1999, aos 82 anos. Como evitar qualquer tipo de clichê ou esoterismo que rondam o imaginário popular sobre o universo cigano? Ana e Brodt tiveram essa questão em mente durante todo o processo de concepção do espetáculo. Qualquer deslize poderia soar falso - na pior das hipóteses, a lembrança ordinária do intolerável cigano Igor na novela Explode Coração. Felizmente, o público paulistano pode seguir para o Sesc de olhos fechados. E mantê-los bem abertos durante toda a peça. Ana conta de sua preocupação com a fidelidade com que procuraram retratar aquele mundo. A atuação delicada e ao mesmo tempo intensa de Gustavo Damasceno, Stephane Brodt, Ludmila Wischansky, Nívea Magno, Breno Primo de Melo, Ricardo Damasceno, Cassiano Gomes e Kely Brito nos transporta ao distante vilarejo do Leste Europeu. Vale também prestar atenção nos figurinos e no cenário belo e funcional. "Viajamos até a Índia, país de onde saíram todos os ciganos, para buscar tecidos e adereços. Chegamos a negociar diretamente com os ciganos, que tiravam dos seus pulsos os acessórios para nos vender", relembra Ana. Todo esse cuidado só poderia resultar na aprovação dos gitanos brasileiros: diversas comunidades foram prestigiar a peça no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio no ano passado vestindo, inclusive, suas indumentárias festivas. E se emocionaram com Savina, principalmente ao ouvir o romani, que Ana frisa ser dito "meio na linguagem verdadeira, meio na linguagem teatral". "Acredito que tenha sido importante para eles ver a sua cultura representada em um espaço tão nobre." O elenco, que apresenta coreografias muito bem trabalhadas ao longo do espetáculo, não fez aula de dança cigana. "Nossa pesquisa foi baseada na observação de muitos filmes e no mundo", diz a diretora. A tragédia, que gira em torno da promessa de casamento dos filhos ainda nem nascidos (Savina e Ika) dos dois amigos que se encontram no bar no início da peça, é muito simples, assim como a maioria das histórias ciganas. No entanto, Ana acredita que é a partir desse ponto que se pode discutir "o valor da palavra dada, a ética, o respeito, a família, a verdade e a mentira". Savina. 12 anos. Sesc Santana (349 lug.). Avenida Luiz Dumont Villares, 579, Santana, telefone 6971-8700. Sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 20. Até 1.º/4

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