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O último pouso

Ideia feliz: depositar num cemitério de aves as cinzas de um passarinheiro apaixonado

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2018 | 03h00

No que deu aquela ideia de dois vereadores paulistanos de permitir enterro de cães, gatos e outros animais de estimação na sepultura de seus donos nos cemitérios públicos da cidade? Se virou lei o projeto apresentado há 4 anos por Roberto Trípoli, do PV, e Antônio Goulart, do PSD, o anúncio da novidade me escapou. Até agora, não tive notícia de VIPs – very important pets – baixando à cova de seus amos. Nem sei de algum lugar, no Brasil ou lá fora, onde isso possa acontecer. E olha que já estive – por ora, apenas de passagem – em muito cemitério neste mundo. De gente ou de bicho – nunca de ambos. 

Na minha condição de irremediável sem-pet, não chego a ser parte interessada, mas vejo com simpatia a ideia de proporcionar, na morte, pouso comum a quem em vida tanto afeto partilhou, pouco importando se um era gente e o outro, bicho. Por que não?, volto a pensar, ao ouvir de um amigo, dos mais chegados, um relato tão tocante quanto inusitado, e que, por envolver delicadezas, passo adiante sem revelar a fonte.

*

Quando perdeu o pai, anos atrás, esse amigo, de quem direi apenas que se trata de um artista genuíno, decidiu cremar o corpo aqui mesmo, em São Paulo, onde a família, carioca, então residia, diante das dificuldades, financeiras, inclusive, de enterrá-lo junto à parentada, no Rio de Janeiro. 

Dias mais tarde, ao receber as cinzas, o filho viu acender-se uma dúvida: o que fazer com elas? Enterrar? Espalhar em algum canto ou recanto? Em qualquer hipótese, onde fazê-lo? Cogitou, outra vez, depositá-las no túmulo de seus avós; hesitava, porém, ao constatar que, mesmo num cemitério, bem vivas estão as burocracias. 

Na dúvida, guardou a urna num armário, que de quando em quando abria em muda e emocionada contemplação. 

Poucas semanas atrás, um compromisso profissional o levou ao Rio, e então pôs na bagagem, além da parafernália fotográfica, as cinzas paternas, ainda sem saber qual destino lhes daria. Nesse impasse estava quando, numa caminhada à beira-mar, lhe acorreu a lembrança de que o pai, a vida inteira, foi apaixonado pelos passarinhos. 

Mais de uma vez, aliás, em nossos papos de padaria, trocamos memórias de infância e, entre elas, o que em nós ficou por termos tido pais passarinheiros. Ele no Rio, eu em Minas Gerais, crescemos na mesma paisagem doméstica de curiós, bicudos e azulões, alçapões e gaiolas, provisões de alpiste, painço (“paim”, dizia meu pai) e cânhamo, muito antes de sabermos que este último, inocente comidinha de aves, vem a ser semente de maconha. Nenhum de nós resultou passarinheiro, mas compartilhamos um platônico amor às aves, além, devo admitir, de um subproduto não avícola do cânhamo. 

Num desses papos, ele me contou que o pai, dado também a versejar, chegou a reunir poemas numa brochura tosca cujo título, que agora me escapa, entrou a palavra pássaro. Quanto a mim, contei das incursões do velho Hugo por tudo quanto é canto de Minas, de Goiás, do Espírito Santo, e do esforço quixotesco a que por anos se entregou, de pegar passarinhos onde houvesse fartura para soltá-los onde já escasseassem, convertido, assim, no que chamei de espalhador de passarinhos.

*

Ao lhe voltarem lembranças do pai passarinheiro, com elas meu amigo viu pousar a decisão certeira – e óbvia: as cinzas, como antes não pensara nisso?, teriam o melhor destino se aspergidas num ambiente que tudo tem a ver com a paixão do falecido, um lugar de que até então apenas ouvira falar, o Cemitério dos Pássaros, na ilha de Paquetá. Cinquenta minutos de barco, caminhada breve até a rua Joaquim Manuel Macedo – e lá estava, encostado num cemitério de gente, aquele que talvez seja o único cemitério de pássaros da América Latina, ou mesmo, há quem diga, do mundo.

Não se sabe ao certo quando surgiu aquele espaço modesto, do tamanho, no máximo, de uma quadra de basquete. Lá está, no mínimo, desde a década de 1940, pois seu criador, o artista plástico Pedro Bruno, morreu em 1949. Brotou na informalidade, sem que se possa saber que ave terá sido seu defunto inaugural, e assim até hoje se mantém, cuidado, a troco de nada, por dois ou três abnegados. Apenas 24 túmulos, com as dimensões de caixas de sapatos, dão perfeitamente conta de acolher os pássaros que chegam, trazidos pelos donos, encarregando-se a rapidíssima decomposição de garantir espaço para todos. 

Embora não haja um registro de sepultamentos (pelos quais nada se cobra), fala-se que ali tiveram último pouso, canoros ou ornamentais, inumeráveis pombos, periquitos, trinca-ferros, canários, calopsitas e, trazido congelado de Minas Gerais, um papagaio.

Nenhuma celebridade alada do quilate do legendário “Cher Ami”, pombo-correio que, na 1ª Guerra Mundial, ajudou a salvar cerca de 200 combatentes dos EUA, feito pelo qual se fez merecedor da Cruz de Guerra da França e de lugar de honra no Museu Nacional da História Americana, em Washington, onde jaz seu corpo empalhado, menos a perna decepada por bala na derradeira missão. 

Num canto, as 22 placas de um “painel poético” deixam ler versos de Gonçalves Dias, Drummond, Castro Alves, Machado de Assis e Orestes Barbosa, todos, claro, de inspiração ornitológica, além da letra de Passaredo, escrita por Chico Buarque para melodia de Francis Hime. 

Na entrada do cemitério – curiosamente, palco também, não raro, de saraus, piqueniques e jantares –, há uma placa com o desenho de um pássaro e uma inscrição: “Estou cantando para alegrar meus companheiros”. Entre estes, a partir de agora, imagino que muitíssimo à vontade, o pai passarinheiro de um querido amigo meu. (Para o Paulo Leite) 

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