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'O Último Imperador' ganha versão 3D

Diretor Bernardo Bertolucci mostra cópia restaurada do filme, lançado em 1987, em Cannes Classics

LUIZ CARLOS MERTEN - ENVIADO ESPECIAL ,

21 de maio de 2013 | 02h08

CANNES - Em 2011, ao ganhar sua Palma de Ouro honorífica, e no ano passado, quando mostrou Io e Te na Croisette, Bernardo Bertolucci disse que era uma amarga ironia que justamente ele, que amava tanto os travellings, tenha sido confinado pela doença a uma cadeira de rodas. "Virei um travelling ambulante", autodefiniu-se. Bertolucci voltou no fim de semana a Cannes e no domingo deu um reduzido número de entrevistas - três - para pequenos grupos de jornalistas. Veio apresentar a versão restaurada de O Último Imperador em Cannes Classics.

Embora a decisão de converter o filme para 3D não tenha sido dele, Bertolucci concordou com o repórter que lhe disse que ele parecia haver antecipado o recurso, há quase 30 anos. Só para situar no tempo e no espaço - O Último Imperador é de 1987. Ganhou os principais prêmios do ano - incluindo quatro Globos de Ouro e nove Oscars, entre eles os de filme e direção. Lembram-se da cena magnífica em que o imperador menino brinca com a bola na Cidade Proibida? Ficou ainda mais deslumbrante em 3D, com aquela cor e a profundidade do espaço, proporcionada pela terceira dimensão.

Mesmo preso à cadeira de rodas, Bertolucci não é do tipo que fica se lamentando. O melhor filme é o último - Io e Te. Por quê? "Porque é uma história de iniciação, e eu sempre gostei do tema. Porque foi um filme feito com muito amor, porque é muito bonito." Embora não se prenda ao passado e prefira olhar para o futuro, Bertolucci não se furta a comentar de forma elogiosa seu épico intimista sobre o último imperador da China. Criado como Deus, Pu Yi, interpretado por John Lone, foi destituído do trono pela revolução comunista e terminou seus dias como jardineiro no palácio em que havia reinado.

"O filme continua vivo e a primeira parte é muito plástica", avalia o diretor. "O Último Imperador tem algumas das cenas mais belas que criei." Ele se encarregou pessoalmente da restauração, feita pela Recorded Picture Company e pelo Grupo Repremiere. Bertolucci trabalhou com o fotógrafo do filme, o grande Vittorio Storaro. Usaram tecnologia digital de 4-K. A decisão de converter o filme para 3D foi dos produtores, mas o diretor admite que saiu melhor do que esperava. É seu trabalho mais popular, mas com a nova ferramenta poderá aumentar ainda mais seu público. Vale lembrar que Bertolucci queria fazer o intimista Io e Te em 3D, mas desistiu por medo do que chamou de 'vulgaridade' do formato. O que o fez mudar de opinião?

Aos 73 anos - nasceu em Parma, 1940 -, Bertolucci disse que já viu muitas revoluções técnicas e estéticas no cinema, e está seguro de que ainda vai ver muitas. "Todo mundo diz que o cinema está mudando, que vai acabar, mas esse é um discurso que ouço desde os anos 1960, quando comecei a dirigir. Não me admiraria se, depois dos novos suportes e tecnologias, do filme para ver no celular, dos efeitos e do 3D, chegássemos ao filme para ver seu relógio, contando o tempo. O público ficou mais ansioso, essa é a verdade." Reavaliando o começo de sua carreira, ele lembra que aquela era uma época de militância e radicalismo político, bem diferente de hoje. "Até o spaghetti tinha de ser politizado" - e ele ri da própria piada. Acrescenta que tem ideias para um próximo trabalho, mas não sabe quando terá condições de fazê-lo. "Talvez no ano que vem."

Em agosto/setembro, ele terá a tarefa de presidir o júri do próximo Festival de Veneza. Manda um recado aos possíveis concorrentes. "Quando me iniciei no cinema, o que esperava dos filmes era surpresa e prazer. Acreditem-me - não mudei. Ainda espero ser surpreendido - e experimentar o prazer estético." Bertolucci não se furta a atender ao pedido do repórter, que lhe pede para comparar seu cinema ao do chinês Jia Zhang-ke, que mostra em concurso, em Cannes, seu novo longa, A Touch of Sin, sobre explosões de violência na China globalizada e capitalista. "Ainda não vi Um Toque de Pecado, mas é um autor que me interessa muitíssimo. Os planos sequências dos filmes de Zhang-ke são muito densos", assinala.

Sobre a nova China, Bertolucci sentenciou. "Estive lá muitas vezes antes de começar a filmar o Imperador, nos anos 80. Acabara a era de Mao e a China começava a mudar. Fui o primeiro diretor, e não apenas ocidental, a filmar na Cidade Proibida. A mudança naquela época era outra, mas já se percebia uma espécie de jogo de poder, tipo gato e rato. Os poderosos não tinham nenhuma consideração pelos fracos. E essa é uma situação que ficou ainda pior na atualidade, embora não seja um problema só da China, naturalmente."

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