JF Diorio/AE
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O último dos Guitar Heroes

Slash esteve em São Paulo com sua banda de roqueiros que tocam alto e pesado. E, só quando aliviaram a mão, pode-se ter uma ideia da genialidade do guitarrista

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

Coitadas das mães que acompanharam seus filhos adolescentes para assistir Slash e banda, nesta noite de quinta-feira. O guitar hero noventista, cérebro por trás do Guns n"Roses, transformou o HSBC Brasil em uma panela de pressão sonora em que os momentos mais calmos pareciam diversos decibéis acima do que se costuma ouvir em shows do mesmo porte. Era, como elas deviam chamá-lo na juventude, rock pauleira de pedigree, daquele que não pesa como as vertentes extrapoladas do heavy metal, mas também não alivia a pegada de guitarras e baterias. Para quem já reclamou de má equalização e potência em apresentações de rock, era um prato cheio para nunca mais se esquecer.

Com Myles Kennedy nos vocais, o grupo tocou músicas das bandas Velvet Revolver e Slash"s Snakepit, projetos do guitarrista depois do Guns, assim como algumas das colaborações entre Slash e Axl Rose na época áurea da banda. Um show parecido acaba de ser lançado em DVD, no Brasil, com segmentos ao vivo e material extra do novo disco de Slash.

No palco, é esquisita a dinâmica de Slash e seu grupo, pois Myles se posiciona ao centro do palco, mas o guitarrista, que fica em sua órbita e nada diz, é o verdadeiro centro de atenção. Toda vez que a boa quantidade de versos e refrões banais - hard rock genérico - terminavam, Slash tomava conta das músicas com seu virtuosismo. O público ia ao delírio e gritos pontiagudos adicionavam pressão à Bombonera em que o HSBC foi transformado. Durante boa parte do show, o rock and roll foi saturado. Como banda, o grupo parecia um cover de Led Zeppelin ou até o Guns: Nas canções da banda californiana, Myles imitava o vocal esfolado de Axl, que ultimamente não tem cantado nada. Pode-se dizer até que com o Slash o grupo visto na noite de quinta-feira é mais fiel ao Guns do que o próprio grupo.

Tanto se batia nos instrumentos, que a categoria de Slash ficava em segundo plano. Seus primeiros solos, como o de Civil War, cortavam com pedal de wah wah pelo peso da banda. Mas como a dinâmica era nula e tudo era tocado no limite, pouco se ouvia além da ocasional nota envergada nos registros agudos da guitarra. Entre a sequência de rock and roll pasteurizado que dominou a primeira parte do show, só We"re All Gonna Die, cantada por Iggy Pop no disco Slash, lançado em 2010, se destacou.

Com a progressão do show, Slash finalmente teve a oportunidade de brilhar. O primeiro solo decente que seus capangas lhe deram, na própria We"re All Gonna Die, mostrou que depois de todos esses anos, a forma do guitarrista ainda é absoluta: fez um solo alucinante, com tempo para desenvolver suas ideias. Dos guitarristas que o influenciaram, o único que ecoa claramente em seu estilo é Jimi Hendrix.

Em três ou quatro momentos da noite, Slash mencionou riffs de Voodoo Chile e Machine Gun. E foi curioso que, quando a banda finalmente resolveu pegar mais leve, como nos solos centrais do show, a música se tornou mais envolvente. Esses foram improvisos de quatro ou cinco minutos feitos para quem foi ao show para ver o que Slash realmente sabe fazer. A técnica é impressionante, algo como se Hamilton de Holanda resolvesse tocar rock and roll. Slash sobe e desce de maneira vertiginosa pelo pescoço de seu instrumento, construindo solos robustos e bem pensados. Não há a apelação para a velocidade, algo comum entre os "shredders" do heavy metal, mas sua técnica catalisa toda a efervescência do blues elétrico em diversas notas por segundo.

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