O último dos grandes

Aos 69 anos, Plácido Domingo reage à cirurgia, faz estreia como barítono e é ovacionado no Scala

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Em tom de desabafo, o tenor Marcelo Álvarez não mediu palavras. "Está na hora de ele sair de cena e dar espaço à nova geração. Ele já teve bastante tempo sob os holofotes." A declaração sobre o colega Plácido Domingo, dada ao jornal La Razón, não pegou muito bem. E o fato é que o tenor mexicano não tem sinalizado intenção de diminuir o ritmo. Aos 69 anos, continua a ampliar seu repertório, fez sua estreia como barítono e, na semana passada, após uma breve interrupção para uma cirurgia no intestino, foi ovacionado por 15 minutos pelo exigente público do Scala de Milão.

Domingo voltou ao Scala no papel de Simon Boccanegra, o atormentado doge da ópera de mesmo nome de Verdi. A atenção da mídia se justifica. Poucas semanas antes, havia cancelado apresentações devido a uma cirurgia para remover um tumor no cólon. Fora isso, Simon é um papel para barítono, voz mais grave que a do tenor - e, na ópera, são raras as vezes em que um cantor alterna de um registro vocal a outro. Domingo o fez. E bem.

Simon tem sido a tônica de sua temporada; cantou o papel em Berlim e Nova York antes de aportar em Milão. Transmitida pelos cinemas de todo o mundo em janeiro (no Brasil, há sessões previstas para maio), a récita do Metropolitan impressionou pelo frescor da voz. O crítico Anthony Tommasini, do New York Times, escreveu que "a voz de Domingo soou espontânea e fresca, em uma interpretação extremamente convincente de um dos pilares do repertório romântico italiano". Na revista inglesa Gramophone, um crítico até relacionou outros papéis de barítono que Domingo poderia encarar em um futuro próximo - entre eles, Iago, no Otelo de Verdi.

Em entrevista recente à agência France Presse, Domingo anunciou que não está mudando de vez para o registro de barítono. Está aberto a possibilidades, mas Iago não é uma delas. E, de qualquer forma, pretende seguir como tenor. Aqui, os feitos também impressionam. Em uma idade na qual a maior parte de seus colegas costuma abandonar os palcos, Domingo segue ampliando a lista que já contabiliza mais de 115 personagens em óperas de diversos períodos, estilos e épocas. Em 2000, gravou o ciclo A Canção da Terra, de Mahler; dois anos mais tarde, atuou na estreia mundial de Merlin, de Isaac Albéniz; em 2008, fez seu primeiro Haendel com Tamerlano e interpretou o papel-título de The First Emperor, ópera escrita especialmente para ele pelo compositor chinês Tan Dun; tem atuado cada vez mais como regente e é diretor das óperas de Washington e Los Angeles.

Pacto? Como explicar tamanha vitalidade, uma vez que a tendência natural da voz é a perda de força e equilíbrio com o passar dos anos? Um blogueiro sugeriu um pacto com forças sobrenaturais, mas a explicação não precisa ser tão esotérica. Domingo foi sempre cuidadoso na escolha de papéis e, respeitando a evolução natural da voz, foi trocando sistematicamente de repertório. Papéis mais leves foram dando lugar a outros mais pesados. E mesmo nos casos em que lhe faltavam notas mais agudas, a inteligência musical garantia interpretações acima da média.

O mundo da ópera também se alimenta de heróis e ídolos. Domingo faz parte de uma geração mítica, marcada por grandes vozes que pareciam resistir ao tempo e às adversidades. Com a morte de Luciano Pavarotti, em 2008, reina sozinho como representante desse grupo. Marcelo Álvarez, um dos muitos a lutar pelo posto de seu substituto, tem certa razão quando diz que Domingo é o último dos grandes porque sua presença impede a ascensão de novos astros. Mas o desabafo não dá conta de explicar tamanho fenômeno. Quando se juntaram para o famoso concerto em Roma, em 1990, Domingo, Luciano Pavarotti e José Carreras não apenas criaram uma das mais bem-sucedidas marcas do mundo clássico, os Três Tenores; o que fizeram foi reforçar o tenor e seus dós de peito como uma figura mítica, se estabelecendo como herdeiros da tradição de Enrico Caruso, Beniamino Gigli e companhia.

Com a crise da indústria fonográfica, que já não impulsiona carreiras como antes, e um mercado em rápida transformação, os novos tenores parecem pequenos perante as lendas do passado. E do presente. Que fim levará afinal essa história? Difícil saber. Fato é que Domingo não vai durar para sempre. Até lá, no entanto, é prazer do público acompanhar os últimos lances de uma carreira de exceção.

CANDIDATOS AO TRONO

Jonas Kauffman

É o mais novo aspirante ao posto de principal tenor dramático do mundo. Foi descoberto por acaso no coro da Ópera de Munique por um empresário e, nos últimos cinco anos, tem montado uma discografia de respeito: seu último álbum o traz às voltas com o repertório alemão, regido por ninguém menos que Claudio Abbado (selo Decca/Universal).

Marcello Giordani

O tenor tem se estabelecido como grande intérprete do repertório italiano. É uma das estrelas do Metropolitan Opera de Nova York.

Marcelo Álvarez

O argentino compete com Giordani no que diz respeito ao repertório. Nos últimos anos, seu principal papel é Andrea Chennier, na ópera de mesmo nome de Umberto Giordano - um dos grandes papéis de Domingo.

Rolando Villazón

Há dois anos, parecia não haver dúvidas - surgira um novo grande tenor. Suas parcerias com a soprano Anna Netrebko nasciam antológicas e era como se não houvesse limites para essa voz que, de tom escuro, lembrava a do jovem Domingo. A alta exposição do mexicano, no entanto, cobrou seu preço e ele foi obrigado a cancelar as últimas duas temporadas por problemas nas cordas vocais. Acaba de retornar aos palcos.

José Cura

Argentino, venceu o concurso de canto promovido por Domingo mas enfrentou papéis pesados antes da hora, encurtando a carreira, hoje limitada a poucas aparições por temporada.

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