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O triplo pai

Os intelectuais são parentes próximos dos poetas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 02h00

Quando eu era jesuíta, corria uma piada interna, naturalmente favorável à Companhia de Jesus. Disseram-me que, certa feita, em uma sala de espera do Vaticano, três religiosos aguardavam para serem atendidos por algum cardeal. De repente, falta luz e a sala mergulha em profunda escuridão. Parados ali, os padres começam a falar. O frade franciscano, tomado pelo espírito poético do fundador, começa a entoar um Cântico da Escuridão: “Louvada seja irmã treva que emoldura a luz e nos faz anelar pela radiante esperança divina”. E prosseguiu em alegria despojada saudando o breu. Outro frade mendicante, um dominicano, esperou o poema do religioso terminar e, fiel à tradição teológica de um Tomás de Aquino, refletiu se as trevas seriam o devir da luz ou a potência aristotélica no equilíbrio entre a solução de Parmênides e Heráclito. Por fim, ainda em curso a douta explicação do filho de São Domingos, a luz é restaurada. Eis que retorna o jesuíta que tinha se ausentado para trocar o fusível. 

Sim, eu sei, piadas religiosas raramente são engraçadas. Se foram corporativas então, ainda apresentam um discreto traço de preconceito. O que quero extrair da anedota é a caracterização de três personalidades: a poética, a intelectual e a prática. 

Os poetas parecem ver o mundo a partir de um prisma especial. Engendram palavras, criam rimas, suspiram, admiram ou rejeitam o mundo por meio da sua lira interna. Cruel ou amorosa, realista ou dada a devaneios metafóricos, a poesia sempre trata da beleza, mesmo que seja, como no clássico texto de Baudelaire, a descrição de uma carniça abjeta. A beleza existe na arquitetura poética que contempla a morte ou a rosa como algo único e especial. 

Os intelectuais são parentes próximos dos poetas. Buscam causas primeiras, analisam, verificam, pesam na balança da verdade científica as verdades dogmáticas que, até então, eram aceitas pela autoridade da tradição. O intelectual busca, independentemente da sua orientação política, o que ele pode demonstrar como o verossímil a partir de argumentos verificáveis. A busca do melhor e mais embasado argumento existe para o intelectual como a palavra mais bem engastada emerge do cérebro poético. 

Por fim, com parentesco mais distante, emergem os práticos. Claro que há intelectuais práticos e talvez, até, poetas práticos. O prático puro pergunta da utilidade da lei científica ou do valor verificável do soneto. O prático clássico tem mente de engenheiro, profissão prática por excelência. Um engenheiro civil pensa em resistência de materiais, custo e viabilidade da obra. O arquiteto é mais bem entendido pelo poeta e pelo intelectual. O prático ama engenharia. Resultado verificável das diferenças: arquitetos resistem muito a tomadas numerosas; engenheiros adoram os orifícios na parede que permitem o fluxo de energia elétrica. Arquiteto pensa na fealdade daquela interrupção da suave curva que projetou, a execrável tomada. O engenheiro perguntará quantas seriam necessárias para o uso futuro da sala e se devem ser de 110v ou de 220v. 

São arquétipos, claro. Os modelos de poeta, de intelectual e de prático existem amalgamados dentro de todos nós. Os exemplos de arquitetos e engenheiros constituem-se em estereótipos para fins didáticos e lúdicos. 

O título prometia uma receita de pai. Tergiversei pelo Vaticano e pelo mundo profissional. Eis o meu objetivo: um bom pai reúne os três tipos. Para ser pai é indispensável a poesia, a capacidade de ver além do que meus olhos registram. Um bebê é um poema embrionário. Perceber nele todos os épicos subsequentes implica imaginação poética. Ali está seu filho, chorando e sorrindo, versos livres, achando suas rimas e sentidos. Ali está você, autor e testemunha da obra agitada e adorável. Nada mais poético do que notar ritmos de narrativa, adjetivação, linguagem conotativa e denotativa e possibilidades infinitas à frente. Todo bom pai deveria ser um poeta imaginativo. 

Um pai tem o impulso racional para o esclarecimento, a busca dos andaimes que explicam a parede, destrinçando fatos que parecem aleatórios. O olhar paterno busca padrões, tendências, regras, leis e exceções. Enfim, deseja controlar o randômico da própria natureza impresso na filha ou no filho. A biografia dos seres que gerei será uma eterna querela entre a ciência e o ser, entre os livros e o resultado complexo do laboratório. 

Por fim, impossível ser pai sem ser prático. Vacinas, transportes, banhos, orçamentos, estratégias para vencer birras. Ser pai é constituir uma planilha interna muito complexa e elaborada. Um pai sempre vai mancar se for apenas poesia, abstração ou vida prática. Sem poesia, meu filho não cultivará a alma; sem abstração, não regará o cérebro e, sem cuidados práticos, perderá o corpo. Um bom pai é jesuíta, franciscano e dominicano, troca fusíveis, pensa e se diverte esteticamente. Um bom pai está inteiro na paternidade. Sempre lamento que exista mais gente fértil do que vocações para a paternidade. Ser pai é complicado de uma forma diferente da complicação de ser mãe.

Hoje é Dia dos Pais e tenho saudade do doutor Renato Karnal. Era bom intelectual, tinha sensibilidade poética, nem sempre foi prático na dura medida que a vida demandava. Ninguém é perfeito e, talvez, essa seja a chave de eu sentir tanto a falta dele. O mais importante: amou-me de forma intensa, especial e muito generosa. Este é meu oitavo Domingo dos Pais sem ele. Bom domingo a todos os pais e filhos. Bom domingo para a vida gerada e cuidada. Bom domingo para o amor. Feliz Dia dos Pais. 

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