SpaceX via The New York Times
SpaceX via The New York Times

O traje da SpaceX, de Elon Musk, é como um smoking para a Enterprise

Afinal, em se tratando de capturar a imaginação do público ligada à viagem espacial, o estilo é importante

Vanessa Friedman, NYT

30 de maio de 2020 | 15h59

Michael Bay, o diretor do filme de desastre cósmico Armageddon (1998), comentou certa vez em entrevista a pior crise da produção desse título.

“Três semanas antes do nosso primeiro dia de filmagens, fui conferir os trajes espaciais", disse Bay. “Pareciam agasalhos esportivos em um cabide. Naquele momento, quase me matei.” Afinal, disse ele, se os astronautas não vestissem um traje “legal”, o filme não decolaria.

Aparentemente, Elon Musk segue a mesma filosofia.

Ao menos, é o que parece, a julgar pelos trajes de lançamento e reentrada em branco e preto que os astronautas Robert Behnken e Douglas Hurley vão usar quando entrarem no seu Tesla branco e preto e seguirem para a pista do Cabo Canaveral, embarcando na cápsula branca e preta SpaceX Crew Dragon para a viagem de estreia do foguete SpaceX Falcon 9 com destino à Estação Espacial Internacional.

Afinal, em se tratando de capturar a imaginação do público ligada à viagem espacial, o estilo é importante.

“Os trajes são os mamíferos carismáticos do equipamento espacial", disse Cathleen Lewis, curadora de programas espaciais internacionais e trajes espaciais do Museu Nacional Aeroespacial da Smithsonian Institution. “Evocam a experiência humana.”

Na verdade, esses trajes da SpaceX evocam principalmente o smoking de James Bond, como se tivesse sido reimaginado por Tony Stark como um modelo para a próxima grande aventura de James T. Kirk. Linhas elegantes e articuladas com atenção ao design visual, são trajes que parecem mais à vontade no universo das convenções de quadrinhos do que nos projetos da Nasa.

Não surpreende, já que o protótipo foi criado por Jose Fernandez, figurinista que trabalhou em Batman vs. Superman, Quarteto Fantástico, Vingadores, X-Men II e… bem, já deu para entender. Como disse Bay a respeito de sua experiência com Armageddon: “Há profissionais em Hollywood especializados no design de trajes espaciais e capacetes. É um segmento bastante específico".

O programa espacial sempre compreendeu o uso dos elementos visuais, disse Cathleen. Os trajes Mercury eram verdes, cor padrão da força aérea, até que alguém os pintou de prateado. E ainda que, de acordo com ela, não faltem “teorias explicando o motivo disso", incluindo a ideia segundo a qual o prateado tornaria os astronautas mais visíveis, “o mais provável é que ficaram com aparência de novos, artigos de alta tecnologia". Musk está levando esse conceito a um novo patamar.

Os resultados bebem na fonte do romance e da mitologia do espaço — a promessa de “ir audaciosamente onde nenhum homem jamais esteve — em vez de servir como desajeitado lembrete da presença de indivíduos minúsculos à deriva em um ambiente ao qual claramente não pertencem, representado na corpulenta silhueta de boneco pneumático dos trajes espaciais clássicos. Lembra dos grandes trajes brancos usados pela tripulação da Apollo nas fotos originais na Lua?

Até os novos trajes azul-cobalto da Boeing, modelo Starliner, apresentam o mesmo perfil, ainda que menos corpulentos do que os trajes do lançamento da Discovery, em 2011, apelidados de “modelo abóbora".

Em comparação, os trajes da SpaceX remetem à tradição da indústria da moda, quando estilistas como Courrèges e Paco Rabanne personificaram a viagem espacial nos anos 1960, época de Barbarella, do otimismo e de uma abordagem mais consciente do corpo.

Mas, principalmente, remetem à tradição de Hollywood do corpo humano guerreiro idealizado, frequentemente com ombros exagerados e uma carapaça de musculatura adicional, e não o traje de piloto de altitudes elevadas que foi a base da maioria dos trajes espaciais anteriores, disse Cathleen.

Os trajes de Musk têm painéis mais escuros nas laterais para definir e limitar visualmente o torso, ombros mais retos, costuras aerodinâmicas da gola ao joelho e botas dignas de super-herói, na altura do joelho. Não têm os fios, mangueiras e tomadas dos trajes tradicionais.

Os trajes da SpaceX podem fazer isso em parte porque não foram projetados para o uso fora da espaçonave e, portanto, não têm que ser o que Cathleen chama de “espaçonaves pessoais” equipadas com oxigênio, sistemas de refrigeração e comunicação.

E, diferentemente da maioria dos trajes do passado, pensados para o conforto de um astronauta preso a uma poltrona, frequentemente assumindo uma aparência folgada e corcunda na vertical, os trajes da SpaceX causam a mesma impressão estilosa, seja com o usuário de pé ou sentado.

Eles também satisfazem aos muitos tipos de rigorosas exigências técnicas de uma peça totalmente funcional. Um traje espacial é um equipamento que deve se conectar com a nave, e não apenas ter cores que combinem com ela. É isso que distingue os trajes enquanto produto da mente de Elon Musk.

“Enquanto a viagem espacial era subsidiada pelos governos, não havia necessidade de tornar os trajes atraentes, pois a única preocupação era a segurança dos astronautas", disse Gary Westfahl, autor de The Spacesuit Film: A History, 1918-1969, por e-mail. “Mas, se a viagem espacial vai se tornar um ramo de empresas particulares em busca do lucro, elas têm um interesse natural em fazer com que seus astronautas sejam atraentes.”

(Há um motivo pelo qual Richard Branson procurou a Under Armour quando estava buscando um designer para os uniformes da sua Virgin Galactic, que se encontram esteticamente em algum ponto entre o passado da Nasa e o presente da SpaceX.)

“É um uso inteligente da estratégia de marca, pois sinaliza o início de uma nova era", disse Cathleen, que espera comprar um traje da SpaceX para acrescentar ao acervo de 278 trajes espaciais, protótipos e uniformes já pertencente ao Museu Smithsonian. Trata-se da era da viagem espacial comercializada, com todas as extensões de marca que isso implica.

De fato, talvez os trajes da SpaceX representem acima de tudo o uso definitivo de uma iniciativa antes abandonada: a tecnologia de vestir. Resta ver a ideia de Jeff Bezos para o Blue Origin. / Tradução de Augusto Calil

 

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