O torneio que nunca existiu

"Documentário" bem-humorado, A Copa Esquecida reconstitui o campeonato de 1942 na Argentina

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2012 | 02h10

A 2.ª Guerra Mundial interrompeu a sequência das disputas da Copa do Mundo de futebol - depois de 1938, na França, o Mundial só voltou a ser disputado no Brasil, em 1950, deixando como lacunas as competições de 1942 e 1946. Bem, isso é o que diz a versão oficial, pois, segundo o documentário A Copa Esquecida, que será exibido hoje, último dia da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, houve, sim, o torneio de 1942, disputado na Patagônia, Argentina, e vencido por uma seleção de índios mapuches.

Trata-se, claro, de uma divertida brincadeira dos cineastas italianos Lorenzo Garzella e Filippo Macelloni, que se apoiam na veracidade habitualmente conferida pelos documentários para contar uma enorme mentira. Para tanto, eles conseguem o apoio de personalidades, como os ex-jogadores Gary Lineker (inglês) e Roberto Baggio (italiano), que falam em tom sério sobre a misteriosa realização daquele Mundial. Até o ex-presidente da Fifa, João Havelange, contribui com um divertido depoimento.

Eles partiram da afirmação de um argentino, Osvaldo Soriano, de que a Copa do Mundo de 1942 não figura em nenhum livro de História, apesar de ter se realizado na Patagônia. Como não há comprovação científica, o documentário apresenta a sua. Assim, o absurdo já se revela no início, quando um conhecido jornalista esportivo da Argentina, Sergio Levinksy, participa de um debate na televisão sobre uma importante descoberta arqueológica na região da Patagônia: em meio a fósseis de dinossauro, é encontrado o esqueleto de um homem agarrado a uma câmera filmadora. Pesquisas iniciais detectam que se trata de um cinegrafista argentino contratado para filmar a final da Copa do Mundo de 1942, ocorrida no local.

Assim, enquanto o filme contido na câmera é cuidadosamente revelado, o documentário revela detalhes sobre a ambição de um excêntrico conde húngaro, Vladimir Otz, que teria convencido a Fifa a realizar a Copa na Patagônia - na realidade, a entidade estudava três países como opção: além da Argentina, o Brasil e a Alemanha.

Com o aval da Fifa, o Mundial lá se realiza e com a partição de uma seleção local, formada por índios mapuches. A partir daí, a dupla de cineastas italianos inclui no documentário uma série sem fim de absurdos, digno do melhor humor do Monty Python.

Afinal, os índios não são só bons de bola, mas como inovadores nas jogadas, fazendo gols em lances malabarísticos. O documentário chega a reunir "atletas" do período ainda vivos para relembrar detalhes daquela época.

E, para temperar o futebol com uma pitada de erotismo, surge ainda um triângulo amoroso formado pela bela filha do conde, interessada nos craques das duas melhores seleções: um musculoso índio mapuche e o atacante alemão, que só joga de óculos. Ela é fotógrafa e faz ensaios sensuais com os dois amantes.

Não bastasse isso, os principais jogos são apitados pelo filho do famoso bandido Butch Cassidy, que ficou na América do Sul depois que o pai foi morto na Bolívia, ao lado de Sundance Kid. O instinto do furto, aliás, está no DNA de Cassidy Jr., como se poderá observar no apocalíptico final.

"Procuramos reconstituir uma história que combinasse contos da fronteira argentina com o esporte", afirmam os diretores, em material de divulgação do filme. Segundo eles, a intenção era construir um épico anárquico em que a comédia se mistura ao rigor do documentário. "A natureza surreal dos acontecimentos, que misturam memória e lenda, serve como uma reflexão irônica sobre o futebol atual, totalmente globalizado e mercantilizado, desprovido de alma e de romantismo."

O objetivo é alcançado, pois até o sumiço da Taça Jules Rimet, roubada no Brasil e até hoje desaparecida, ganha versão humorística, envolvendo o juiz Cassidy Jr. Ao buscar uma veracidade de fachada, a fim de tentar comprovar a história, os realizadores conseguiram tocar na ferida: o futebol atual se impõe mais como negócio que como paixão, fazendo com que os ídolos que surgem se transformem rapidamente em peças de valor de mercado. E A Copa Esquecida ganha mais força com a adesão de ex-jogadores que se portam com galhardia ao dizer frases absurdas - Lineker, por exemplo, revela-se um grande ator.

Quem quase entrega a farsa é o brasileiro João Havelange - habitualmente sisudo, ele tem uma engraçada participação, mas sua fala praticamente entrega o falso documentário. Quase um gol contra.

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