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O toque de excelência do quarteto Emerson

Grupo faz mágica ao transmitir a urgência de obras especiais

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2011 | 00h00

Às vezes a morte nos espera e é possível conscientizarmo-nos dessa espera, escreve Michael Wood no prefácio de O Estilo Tardio, de Edward Said (Companhia das Letras, 2009). "Nesse momento, o teor do tempo se altera, como a luz do dia se altera, pois o presente é ensombrecido por outras estações da vida: o passado revivido ou fugidio, o futuro imensurável, o tempo inimaginável além do tempo".

Reler trechos desse livro de Said, o seu derradeiro, no qual trabalhava quando morreu em 23 de setembro de 2003, certamente faria bem ao público que assistiu ao segundo concerto da temporada 2011 da Sociedade de Cultura Artística, sábado, na Sala São Paulo, em que o Quarteto Emerson interpretou o último quarteto de Bela Bartók e o quarteto Opus 131 de Beethoven. Depois de esclarecer que se concentra, nesse livro, "em grandes artistas que, no fim de suas vidas, criaram um novo idioma para sua obra e seu pensamento", Said diz que eles nos "fazem pensar num artista iracundo e perturbado, para quem o meio dramático é um ensejo para remexer em angústias, questionar a sério a possibilidade de conclusões definitivas e deixar a plateia ainda mais inquieta e perplexa do que antes".

Bartók escreveu seu quarteto n.º 6 em 1939, com a 2.ª Guerra eclodindo, ele mesmo já doente e sua mãe morrendo; o também doente Beethoven completou o Opus 131 em outubro de 1826, meses antes de sua morte em 26 de março de 1827. Ambas são obras que exigem escuta atenta e estão muito distantes do status das obras-primas do passado que hoje funcionam como "spa para almas cansadas", na expressão de um atrevido musicólogo cujo nome não me lembro.

Said cita uma frase de Theodor Adorno que se encaixa como luva nas duas ariscas e angulosas obras-primas: "A maturidade das obras tardias não se parece com a das frutas. Não são redondas, mas ásperas e por vezes devastadas. Destituídas de doçura, amargas e eriçadas, não se oferecem ao mero deleite".

A exata compreensão da natureza dessas obras talvez tenha sido o toque de excelência na performance do Quarteto Emerson. Eles são perfeitos tecnicamente; e fazem a mágica de transmitir ao público a urgência dessas obras compostas às vésperas da morte. Bartók coloca a palavra mesto - triste - em todos os movimentos, e cada um deles é mais lento em relação ao precedente, até angústia final. Beethoven encadeia sete movimentos nos quais mistura, questiona e fragmenta as formas então consagradas, como a fuga, o scherzo, o rondó, as variações (para muitos, o clímax da obra) e a forma sonata.

São, portanto, obras difíceis mesmo após repetidas audições. Aos 35 anos de existência, o Emerson é de fato um quarteto de exceção. Eles tocam de pé (só o violoncelista toca sentado) e os dois violinistas se alternam nas partes de primeiro e segundo violino: Eugene Drucker foi primeiro em Mendelssohn e Philip Setzer em Bartók e Beethoven. Duas atitudes que são bem mais do que meros truques visuais e resultam em uma musicalidade sempre renovada.

De certo modo, o alegre quarteto Opus 44, n.º 3 de Mendelssohn destoou. Composto no verão de 1837, quando ele estava em lua de mel com Cécile Jeanrenaud, não é de thanatos, mas de eros, celebra o amor. Talvez o dilacerado quarteto Opus 80, escrito em outubro de 1847, um mês antes de sua morte, compusesse melhor o buquê de obras tardias da dobradinha Bartók-Beethoven.

Mesmo assim, o concerto dos Emerson afugentou uma garbosa senhora, que, sentada nas primeiras filas da plateia, levantou-se com acintosa serenidade e retirou-se, a passos vagarosos, da Sala São Paulo. Afinal, já dizia Nelson Rodrigues, a unanimidade é burra.

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