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O tititi do monoquíni

Algum tempo passaria antes que o fio dental, aquele que não se vende em farmácia, se aninhasse entre os gomos do derrière feminino, como se fossem eles dois molares; e praticamente duas décadas haviam decorrido desde o dia de 1946 em que o biquíni entrou numa piscina de Paris e, para sempre, em nossas vidas. Entre um evento e outro, cruzou o céu da moda e dos costumes um escândalo de brevíssima duração chamado monoquíni. Não pegou e, meio século depois, continua não fazendo falta; mas vale ser lembrado.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2014 | 02h11

Você, que chegou depois, precisa ir ao dicionário Houaiss para saber que a natimorta novidade consistia numa "espécie de biquíni sem a parte de cima, geralmente preso em suspensórios finos que passam pelos mamilos". Melhor: vá ao verbete ilustrado que o Almanaque 1964, de Ana Maria Bahiana, fresquinho nas livrarias, dedica à esquisitice lançada no verão de 1964 pelo estilista austríaco Rudi Gernreich. Pode não ter conquistado um lugar ao sol da Califórnia, onde se deu a estreia, ou de qualquer outra parte do mundo, mas garantiu a seu autor, na Encyclopaedia Britannica, registro como "designer do primeiro traje de banho topless para a mulher".

Incapaz de abrigar as tetas menos irrequietas - pois os suspensórios, além de finos, eram bambos -, resultou fatal que o monoquíni fosse instantaneamente excomungado à direita e à esquerda, a começar por l'Osservatore Romano, do Vaticano, e o Pravda, da União Soviética. No Rio de Janeiro, o cardeal Jaime de Barros Câmara profetizou que a sociedade brasileira não aceitaria "esta indumentária porque o encanto feminino, segundo as próprias mulheres, existe apenas na atmosfera de reserva e sobriedade que as cerca".

Não deu outra. O clima de exaltação religiosa que o recente golpe militar exacerbara entre a classe média não facilitou a eventual liberação dos melocotones nacionais. Sinal disso é ter caído em ouvidos quase moucos uma parceria de Roberto e Erasmo, Eu Sou Fã do Monoquíni, na qual se descreve o alumbramento ateado por "um brotinho de monoquíni" que, na praia, "vinha caminhando assanhada / pra lá e pra cá" antes de cair na água. "Não posso contar o que vi, / mas sei que nunca mais esqueci". Moral da história: "Broto tem que usar monoquíni, / não suporto mais o biquíni".

Se no permissivo território carioca o invento de Rudi não prosperou, imagine em Belo Horizonte, onde este cronista ia pelos 19 anos. Nas páginas do Estado de Minas, o colunista Antônio Carlos Vieira Christo - pai do futuro Frei Betto - criou uma palavra e, bem-humorado, concluiu que "a monoquinista não se preocupa tanto com o banho em si, mas com a publicidade do banho".

Inexistente nas recatadas piscinas mineiras, ainda assim o monoquíni se fez notar nas Gerais, pois o dono de uma loja, a Estética Decorações, teve a ideia de promover uma espécie de happening em torno da novidade. Você conhece o audaz comerciante: o ator Jonas Bloch, jovem pai de um bebê de nome Deborah Bloch.

Baseando-se em fotos de revista, o dono da loja mandou confeccionar um monoquíni e com ele vestiu um manequim de vitrine. Pôs mesinha na calçada, para recolher as impressões dos passantes. O povo, me contou ele, "levava com humor". Não tardaram, porém, a aparecer senhoras pias a exigir que a tentação fosse escorraçada. Pouco sutis, insinuaram que alguém poderia vir quebrar a vitrine. "Agora é que não tiro mesmo", reagiu Jonas, engrossando o caldo de um assunto que por vários dias animou a imprensa local, e que mais tarde o romancista Roberto Drummond, com muita licença poética, explorou em Hilda Furacão.

Na vida real, lembro-me do dia em que as tais senhoras, em revoada, pousaram na porta da loja, em cuja calçada se ajoelharam, brandindo rosários para exorcizar a indecência, como se ali estivesse, frutos proibidos à mostra, madame Satanás em pessoa.

Final feliz à mineira: o monoquíni não emplacou, as madames se recolheram à toca e Jonas Bloch, dando adeus ao comércio, foi descobrir no palco a vitrine específica para o seu talento.

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