O tiro mais audacioso de John Huston

Anjelica Huston relembra a reputação do seu pai, de infernizar seus atores durante as filmagens. "A única coisa a se fazer era acatar de bom grado. Meu pai admirava os que sobreviveram a tudo aquilo. Era um teste para ver se você tinha valentia e senso de humor. Ao se mostrar essas qualidades, estava qualificado."

Steven Rose, The Guardian, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 00h00

Ela conhecia muito bem o jeito do pai, atuou em quatro filmes dele, mas agora ela se referia a Uma Aventura na África, um dos filmes mais apreciados de John Huston, produzido em 1951, ano em que ela nasceu. Considerado um clássico, passou por restauração completa, e reestreou no Festival de Cannes, em maio.

Em 51, os diretores de Hollywood raramente filmavam fora dos estúdios. Mas ele insistiu em rodar na África. No elenco, Humphrey Bogart, o "amigo de copo"; a jovem mulher de Bogart, Lauren Bacall; mais Katharine Hepburn; e o próprio John.

Uma Aventura na África teve sucesso inesperado. É a história de uma missionária inglesa (Katharine) e um capitão de navio sujo e bebedor de gim, que embarcam numa missão através de um rio tentando fazer sua parte na 1.ª Guerra. Hoje, o filme poderia ser descrito como uma espécie de Apocalypse Now sem o apocalipse. Um excêntrico romance entre opostos que se atraem.

Angela Allen, uma das poucas participantes da equipe que ainda está viva, tinha 22 anos na época e trabalhava como continuísta. "Vivemos num campo na selva. Era preciso pular da cama à noite para os mosquitos não nos comerem e nosso banho era com a água lamacenta do rio."

Katharine, como sua personagem, olhava o regime alcoólico de Huston e Bogart com desprezo. E decidiu beber somente água o que, ironicamente, a deixou doente. "Tudo o que a gente tinha era feijão, aspargos em lata e uísque", lembrou Bogart anos depois.

Mais tarde, Huston, com seu conhecimento de arte e literatura, sua masculinidade rude e uma voz melíflua, acabou conquistando Katharine, com quem teve um romance.

Família. Pai ausente, John Huston uniu-se a Anjelica da única maneira que conhecia: pelo filme. Ela fez sua estreia no cinema em 1968 com Caminhando com o Amor e a Morte. "Ele foi muito duro comigo", ela recorda.

As coisas melhoraram quando rodaram A Honra do Poderoso Prizzi, em 1985, que deu um Oscar de atriz coadjuvante para Anjelica. O último filme de John Huston, de 1987, Os Vivos e os Mortos, parecia ser o derradeiro esforço para resolver as diferenças familiares e a protagonista foi a sua filha, de novo.

Nessa fase, Huston já estava com enfisema e tinha que dirigir as cenas usando máscara de oxigênio. "Alguém disse que era mais fácil para ele dirigir do que respirar", lembra Anjelica, hoje a chefe da dinastia Huston. "Um novo grupo está chegando. Os laços familiares estão mais apertados. Ficamos inseparáveis." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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