O Tinhorão proibido pelo regime militar

Em 1961, o repórter José Ramos Tinhorão recebeu a incumbência de seu chefe no Diário Carioca: "Faça uma série sobre música popular brasileira." O jornal tinha publicado uma série sobre jazz, e agora queria se voltar aos nossos artistas. O jornalista retrucou que não havia bibliografia sobre o assunto, ao contrário da música americana. "Então se vira, vai entrevistar o pessoal", ouviu.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2010 | 00h00

Foi assim que nasceu o grande pesquisador musical Tinhorão, hoje detentor de 13 mil LPs de 76, 78 e 33 rpm, 35 mil partituras, jornais, revistas, fotografias e uma biblioteca com 14 mil obras, não só sobre música, mas sobre cultura popular urbana em geral. Todo o material foi comprado em 2001 pelo Instituto Moreira Salles, que comemorou a aquisição na semana passada, em seu centro cultural do Rio, com uma exposição.

O mais diverso em poder do IMS, o acervo agora está sendo catalogado; posteriormente, será disponibilizado para pesquisadores. "Para mim isso é muito importante", diz Tinhorão. "Não há no Brasil acervo sobre temas da MPB como este. Se eu passei a vida fazendo isso, se formei esse patrimônio intelectual, tenho que permitir que outros tenham acesso."

Durante anos, depois que se separou da primeira mulher, ele guardou tudo isso numa quitinete de 31 m², no centro de São Paulo (ele nasceu em Santos, morou no Rio até 68 e desde então vive na capital paulista). Era tanta coisa que ao dono do apartamento restava dormir num saco de dormir. Essas e outras tiradas estão em Tinhorão - O Legendário, biografia escrita por Elizabeth Lorenzotti e recém-lançada. A publicação é da série Imprensa em Pauta, da Imprensa Oficial de Estado de São Paulo. Elizabeth, também jornalista, contou com a memória incrível do biografado, que lembra em detalhes itens de sua imensa coleção.

São muitas as raridades, e ele cita o livro de modinhas Apollo, de 1865; o primeiro disco lançado no Brasil, em 1902, com o lundu Isto É Bom, de Xisto Bahia, cantado pelo cantor Bahiano; partituras manuscritas por Pixinguinha e Chiquinha Gonzaga. Isso sem falar em coleções de revistas do início do século 20. Há mais de 40 anos, Tinhorão percorre sebos das principais capitais brasileiras e também de Lisboa atrás de mais itens.

Nos sebos ele gastou boa parte do salário de repórter. Livros ele já publicou 30. Esta semana, está lançando dois, A Música Popular Que Surge na Era da Revolução (Editora 34) e Crítica Cheia de Graça (Empório do Livro). O primeiro trata da eclosão da música popular urbana na virada do século 18 para o 19; o segundo traz textos de Tinhorão proibidos pela ditadura e entrevistas com figuras antológicas, como João da Baiana e Heitor dos Prazeres.

Aos 82 anos, o homem que foi detestado pelos que criticou, como os bossa-novistas (para ele, "bossa nova é música americana montada no Brasil" e "Jobim não era um criador, e sim um bom músico") e reverenciado por aqueles com quem trabalhou tem a saúde perfeita. Segue percorrendo sebos, encontrando pesquisadores e jornalistas na livraria Metido a Sebo, lendo, escrevendo, produzindo.

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