JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

O texto vivo de Daniel MacIvor

Em entrevista, autor de ‘In on It’ fala sobre seu processo de criação

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2013 | 20h05

Desde 2001, quando assistiu a uma montagem de In on It em Nova York, Enrique Diaz tem sua carreira atada à do dramaturgo canadense Daniel MacIvor. Além de ter feito a sua própria versão de In on It, em 2009, retornou aos escritos de MacIvor outras duas vezes: em A Primeira Vista, em 2012, e agora com Cine_Monstro, atualmente em cartaz no Sesc Pompeia.

De passagem por São Paulo, onde veio lançar um livro e participar de um debate, o autor conversou com o Estado sobre as peculiaridades de seu processo criativo. Discorreu sobre as estruturas formais de seus textos, que os aproximam de jogos de armar, e confessou qual o seu maior temor ao escrever: entediar o espectador.

Você não é apenas um dramaturgo, mas também um diretor e um ator. Como o fato de atuar e dirigir influenciam a sua maneira de escrever?

Acredito que os meus textos foram feitos para ser encenados, é pela encenação, pela performance que o público acaba se interessando. A história que está sendo contada não é o ponto central para mim. O espetáculo é essencial e a história está sendo contada ali dentro. Talvez porque os meus estudos tenham sido como ator e não como dramaturgo. Não estudei teoria do teatro ou dramaturgia.

Mas você se vê essencialmente como um escritor, não?

Sim, é assim que me defino. Mas eu tenho consciência de que as minhas palavras existem para serem ditas e não lidas. Na página, o texto é difícil de ler, é difícil entender todas aquelas vozes que estão sempre mudando.

E como é o seu processo de criação? Você escreve sozinho ou a partir do contato com seus atores?

Escrevo sozinho, mas nunca começo a escrever porque tive uma ideia. Escrevo sempre a partir de vozes que tenho na minha cabeça, de personagens que começam a conversar. Quando em A Primeira Vista uma das personagens diz que o nosso problema é querer nomear as coisas, isso surgiu de um diálogo entre as atrizes. Ainda que a minha filosofia esteja ali também. Mas não é dela primeiramente que eu parto.

É curiosa essa sua descrição, porque seus textos têm invariavelmente uma estrutura muito nítida, com algo de quase formal e matemático, como peças de um jogo que vão se encaixando.

Sim, é como uma arquitetura. Mas isso acontece porque, para mim, o maior problema do teatro é quando o espectador fica entediado. E sempre que ele sabe o que vai vir a seguir, esse tédio se impõe. Você precisa surpreendê-lo o tempo todo. Dar à plateia a impressão de que está assistindo a um tipo de peça e, de repente, levá-la para outro lugar completamente diferente, Fazer com que abra mão dos seus prejulgamentos.

Essa relação com o espectador parece muito importante para a sua obra. Os personagens falam diretamente para quem os assiste, mas não lançam mão do tipo de interação que costumamos ver no teatro.

Acho que é porque sou muito grato pela presença das pessoas. Elas poderiam não estar no teatro, mas vieram. Não posso ignorar o público, fingir que eles não estão ali. Há uma cena nos Simpsons em que Homer diz a Marge: ‘Você sabe quão chato era isso? Era chato como uma peça.’ Não quero nunca que as pessoas tenham essa sensação com as minhas peças.

Suas encenações são minimalistas, assim como suas indicações nas rubricas das peças. Você prefere o palco vazio? Ou é uma maneira de enveredar por um teatro mais experimental?

Eu tinha um mentor quando era jovem que costumava dizer que uma página em branco é perfeita, e tudo que você coloca ali é uma falha. Isso ficou comigo. Um palco vazio já é perfeito. Para mim, experimental é tentar construir um cenário.

Em A Primeira Vista você construiu uma obra muito afetuosa. Cine_Monstro, de certa maneira, parece o oposto disso, tomada por uma espécie de instinto de morte. De onde vem esses universos tão distintos?

Não acredito nessa ideia de um ‘self’, uma individualidade a ser conhecida, que eu sou ‘uma’ coisa. Acho que o que existe é uma coisa fluida, em movimento, que se manifesta de diferentes maneiras com cada pessoa. Dizer que eu sou de determinada maneira é como dizer que quero viver em estado de felicidade. É impossível.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.