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O teste do pescoço

Em 2013, o funcionário público Francisco Antero e a professora de história Luzia Souza criaram o "teste do pescoço", uma forma simples de saber se existe segregação racial onde você mora.

Vanessa Barbara, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2015 | 02h04

Basta espichar o pescoço para dentro de uma joalheria, por exemplo, e contar quantos balconistas são negros (a categoria inclui pretos e pardos). Ou espiar o interior de um colégio de elite e calcular quantos professores e alunos são afrodescendentes. Em hospitais de ponta como Sírio-Libanês e Albert Einstein, dê uma pescoçada nos quartos e veja quantos pacientes são negros, e quantos médicos negros trabalham por lá. "Aproveite para meter o pescoço nos corredores e conte quantos negros limpam o chão", escreveu a dupla, num post de Facebook que foi replicado mais de 9 mil vezes.

Os resultados são categóricos. Apliquei o teste em um restaurante de classe média alta nos Jardins e descobri que apenas um dos 119 clientes era negro. Entre os garçons e manobristas, a taxa subiu para quatro de dez.

Numa sorveteria da mesma região, que cobra R$ 10 a bola, os resultados foram similares: cinco dos sete atendentes eram negros, em oposição a um em trinta clientes - e tenho quase certeza de que ele era estrangeiro.

A contabilidade é bem distinta quando o espaço é o transporte público; no interior do Lauzane 1744, há algumas semanas, eu era um dos três brancos em um universo de mais de vinte passageiros cansados. A maioria também é negra nos trens e metrôs, sobretudo no horário do rush e em linhas mais periféricas, como a Vermelha, na qual há uma incidência de 70% a 80% de passageiros negros. (Fonte: meu pescoço).

Inúmeras outras questões podem ser submetidas ao teste: quantos alunos negros estudam em universidades públicas? Quantos manequins negros há nas vitrines dos shoppings? Quantos moradores de rua são afrodescendentes, e quantos dos nossos ministros são negros? (Resposta: apenas uma, a chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial).

O Brasil tem a segunda maior população negra do mundo depois da Nigéria. Segundo o IBGE, são 106 milhões de pessoas que se autoidentificam como pretas ou pardas, ou 53% da população. Ainda assim, uma mera pescoçada é suficiente para constatar que brancos e negros não frequentam os mesmos lugares, e que estes últimos são muitas vezes vistos como serviçais ou suspeitos.

Testes menos subjetivos que o do pescoço confirmam esse cenário: no país, o número de analfabetos negros é o dobro do número de brancos e a renda dos negros é pelo menos 40% menor. Os negros correspondem a 68,8% da população abaixo da linha da pobreza, a 68% das vítimas de homicídio e a 61,7% da população carcerária.

Um tanto contraditório para o país da democracia racial.

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