Denis Balibouse/Reuters
Denis Balibouse/Reuters

O testamento de Moody

Saxofonista que morreu em dezembro deixou belo e comovente legado

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

São raros os compositores que têm uma canção gravada por artistas tão diversificados como Amy Winehouse, Sarah Vaughan, George Benson, Aretha Franklin... Pois o autor da façanha é James Moody, saxofonista que se notabilizou por um som particularmente aveludado.

Em 1949, gravou, em improviso informal, uma melodia diferente sobre a sequência de acordes da clássica canção I"m in the Mood for Love, de Jimmy McHugh com letra de Dorothy Fields.

Ela havia sido lançada em 1935, no filme Every Night at Eight (Às Oito em Ponto). Moody"s Mood for Love, a versão com nova letra colocada por Eddie Jefferson correu mundo. E em suas últimas seis décadas de vida (morreu em 9 de dezembro, aos 85 anos), Moody jamais pôde deixar de tocar - e cantar, sim, ele cantava bem - sua marca registrada.

Teve outro momento de glória na grande mídia, quando fez uma ponta em 1997 no filme Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, de Clint Eastwood.        

 

 

 

Áudio

somOuça trecho da faixa Take the 'A' Train 

 

 

Foi uma alma gêmea para Dizzy Gillespie desde os anos 40 (tocou em sua big band de 1946, ao lado de Miles Davis, Thelonious Monk e Kenny Clarke, entre outras feras do bebop recém-nascido) até 1993, quando o autor de Night in Tunisia e seu ídolo confesso morreu.

Não se pode dizer que inovou. Mas levou a bandeira estilística de Lester Young a alto nível de qualidade. Improvisava como quem canta; privilegiava as notas longas, daí ser um baladeiro incomparável. Nos graves, sonoridades aveludadas que pouco se aventuravam nas asperezas.

Curiosamente, o seu carimbo musical não esteve em sua mais bem-sucedida sessão de gravação da plena maturidade, em 2008, em que todas as qualidades acima descritas estão nítidas. No trio que o acompanhou, só velhos amigos. Como o excepcional pianista Kenny Barron, que gravou com Moody pela primeira vez na década de 70 e hoje tem 67 anos; no contrabaixo, está o experiente Todd Coolman, que já tocou com Gerry Mulligan e Horace Silver, entre outros; e, na bateria, o veterano Lewis Nash, cujos parceiros formam um "who"s who" do jazz moderno. Ao todo, 17 performances, basicamente standards e uns poucos temas originais.

No ano seguinte, a IPO Recordings distribuiu Moody 4A, com as primeiras oito, em que se incluíam Round Midnight, Bye, Bye, Blackbird e East of the Sun; e, pouco antes da morte de Moody a mesma gravadora lançou as outras nove faixas.

Pouca gente sabe que James Moody nasceu em Savannah, na Geórgia, e foi diagnosticado precocemente como surdo e deficiente mental já que não conseguia ouvir o que os professores diziam. "Sou meio surdo, e não ouço bem os sons muito agudos. Mas nos graves, ouço tudo", dizia. Brian Morton, um dos grandes especialistas ingleses modernos, autor do Penguin Jazz, a bíblia do gênero, escreve que "seu estilo é muito vocalizado", ou seja, ele imita bastante o jeito da voz. "Seus improvisos parecem nascer a partir das letras das músicas que interpreta, e não simplesmente em função dos acordes ou da melodia escrita."

Sabores. É uma característica de Moody 4B, uma gravação em que ninguém tem pressa. Mesmo nos temas mais rápidos. Hot House, por exemplo, é tocada como se alguém estivesse apertando o freio de mão do andamento. Mas isso não quer dizer que a música se arrasta; ao contrário, eles saboreiam cada frase, do mesmo modo como desfilam refinamento.

Enquanto Coolman e Nash curtem a discrição, Barron é espaçoso (ele merece) e transforma-se num dos grandes destaques do CD. Abre com um solo com jeito de ragtime a primeira faixa, o célebre prefixo da big band de Duke Ellington, Take the "A" Train, de Billy Strayhorn; esparrama-se numa leitura latina de Speak Low; e faz o colchão perfeito para o sax de Moody em Along Came Betty, do amigo saxofonista Benny Golson (com quem brincou numa outra paródia, Benny"s from Heaven, em cima do clássico Pennies from Heaven, de 1935).

Moody 4B não é apenas um bom disco. É um comovente e belo testamento musical para o talento de James Moody.

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