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O tesouro de Dominguinhos

Estão nas mãos de Anastácia, sua ex-mulher, algumas pérolas escondidas do sanfoneiro

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 Julho 2013 | 02h19

Estava duro de botar fogo no sanfoneiro. Anastácia jogava álcool e nada. Acendia um fósforo após o outro e nada. Quando a paciência acabou, ela decidiu usar a peixeira. O homem que havia partido com outra mulher não ficaria mais pregado em sua parede, olhando para ela com aquele sorriso grande como se nada tivesse acontecido. Só que fogo nenhum vencia o pôster. Anastácia pegou então o facão e esfacelou a foto de Dominguinhos. Ainda tomada pela fúria das mulheres traídas, buscou uma caixa em que guardava 150 fitas cassete gravadas com melodias inéditas do marido e cometeu o crime que ela mesma julgaria inafiançável, mais de 30 anos depois: "Eu queimei tudo, vou morrer com essa culpa".

Anastácia queimou quase tudo. Aos 73 anos, vivendo em uma casa na Vila Guarani, em São Paulo, a maior parceira de Dominguinhos, autora de Eu Só Quero um Xodó e outras 212 composições feitas com o sanfoneiro, saberia mais tarde que havia ficado com dez melodias do ex-marido. Algumas delas seriam letradas por Anastácia na época em que Domingos partiu com Guadalupe, a cantora com quem se casaria mais tarde e teria uma filha. Agora, Anastácia quer revelar suas relíquias enquanto há tempo. "Guardo muitas das melodias destas canções na memória. Não sei o que pode acontecer comigo amanhã, por isso quero gravá-las", diz ao Estado.

Pelos 11 anos em que marido e mulher foram letra e música, a dupla seguiu uma dinâmica imposta pela natureza. Domingos acordava cedo, preparava o café, tomava um banho e se sentava com a sanfona no peito. Ligava o gravador e registrava suas ideias. Depois, Anastácia inspirava-se nas melodias e criava as letras. Dominguinhos nunca compôs versos, apenas melodias.

Três dessas canções estarão em um disco que Anastácia finaliza para lançar até setembro, como ela deseja. Se Meus Olhos Falassem é um registro doído de um momento delicado de Anastácia, quando Domingos resolve deixá-la. "Se meus olhos falassem / Talvez te dissessem meu penar / Essa grande agonia que vivo / sofrendo por te amar. / O vazio que sinto / de ver-te tão longe do meu lar / Mas falar não resolve, melhor é renunciar." E seguia em lágrimas, sobre a melodia de um marido já distante. "Se meus olhos falassem / talvez alertassem para os meus ais / Só meu peito amando, meus olhos chorando, é demais." Redenção e Ave de Arribação também estarão no próximo disco da cantora.

As outras sete músicas, dentre elas Pai Nosso do Trabalhador e Venceu a Solidão, serão trabalhadas com mais tempo. A cantora quer primeiro gravá-las para assegurar sua imortalidade e depois, sim, reuni-las em um disco especial.

Anastácia, que em batismo é Lucinete Ferreira, chegou na vida de José Domingos de Morais depois de Janete, a primeira mulher do músico e com o qual já tinha um filho, Mauro. Separado, cruzou com a cantora e letrista de talento pelos palcos do Nordeste em 1967, depois de ganhar a bênção de Luiz Gonzaga e se tornar o príncipe do baião.

Anastácia sente que a história não lhe trata bem quando fala de Eu Só Quero Um Xodó. O fato é que Gilberto Gil a gravou primeiro, e com muito sucesso, tanto que o mundo passou a creditar a autoria a Gil e Domingos. Mas é Anastácia quem merece os louros de uma canção regravada, segundo uma contagem feita pela própria, por 440 artistas diferentes no mundo todo.

A parceria com Domingos que ela guarda em papel de seda é Contrato de Separação, já gravada também por Nana Caymmi. Foi criada em uma noite de saudade, daquelas que arde, quando o marido estava na estrada, em turnê com Gal Costa. "Olha essa saudade que maltrata o meu peito / É ilusão e por ser ilusão / É mais difícil de apagar / Ela vai me consumindo lentamente / Ela brinca com meu peito / E leva sempre a melhor / Eu quis fazer com ela / Um contrato de separação / Negou-se então a aceitar / sorrindo da minha ilusão."

Anastácia ainda compõe. Sabe que seus versos têm força para atrair as atenções quando chegam em um novo disco. "As pessoas querem ouvir o que eu faço, graças a Deus." Quando se senta, tenta ouvir uma sanfona que não existe mais antes de fechar os olhos e partir para sua nova aventura. Mesmo distante, é para Dominguinhos que ainda parece compor. "Se meus olhos falassem, diriam: nascestes para mim... Tanto amor que eu tenho para lhe dar... Mas falar não resolve, melhor é renunciar."

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