Reprodução
Reprodução

O terror das cercanias

A Colômbia não sabe o que fazer com a última parte da herança maldita de Pablo Escobar: seus hipopótamos de estimação

VERÓNICA CALDERÓN CARTAGENA DAS ÍNDIAS (COLÔMBIA) / EL PAÍS,

05 de março de 2011 | 10h31

Mais de 30 hipopótamos perambulam livremente pela Colômbia e nas suas andanças danificam lavouras, derrubam cercas, matam o gado e assustam os camponeses. E o responsável foi aquele que causou uma grande dor de cabeça para o povo colombiano: o traficante Pablo Escobar, já falecido. “De todos os problemas que ele trouxe para o país talvez este seja o último que ainda faltava para a Colômbia: uma peste de hipopótamos que ficam flutuando na água por todo o lado, circulam livremente e ninguém consegue controlar”, afirmou o diretor colombiano Antonio von Hildebrand, que trouxe ao Festival Internacional de Cinema de Cartagena o documentário Pablo’s Hippos (Os hipopótamos de Pablo), patrocinado pelo Sundance Channel e pela BBC, que enfoca o legado mais absurdo deixado por Pablo Escobar, e a partir daí se concentra na vida desse traficante que tanto sofrimento causou à Colômbia.

O resultado é um filme original que, por meio de uma exaustiva investigação, relata as duas histórias: a dos hipopótamos e a de Pablo, traçando suas semelhanças com uma boa dose de humor negro. “Pablo Escobar era o protótipo do macho alfa, tinha o sex-appeal de um Tony Soprano: o todo-poderoso que se defende em primeiro lugar, que pode comprar qualquer coisa, com o qual todo mundo quer se identificar. O documentário mostra até que ponto chegou sua violência para mostrar que era um macho dominante.”

Antonio Von Hildebrand diz que seus pais decidiram tirá-lo da sua Colômbia natal quando tinha 14 anos, depois de uma bomba de 80 quilos ser colocada na sua escola, mas que não detonou. “Desde então, sempre quis falar da Colômbia. E minha intenção nunca foi contar algo novo. Há poucas coisas mais macabras do que rir da sua própria violência, e foi desse ponto de vista que eu parti”, explica.

A história de como os hipopótamos chegaram à Colômbia nasceu da paixão que Escobar tinha por animais. O traficante chegou a utilizar pombos-correio para comunicar-se com seus sicários. Em novembro de 1983, ele comprou os primeiros animais exóticos para construir um zoológico particular, Hacienda Napoles, e os transportou num avião Hércules citado em uma reportagem no jornal El Tiempo como a “narcoarca”. A bordo viajavam cisnes, girafas, gazelas, zebras, cangurus, leões, tigres e um casal de hipopótamos.

As autoridades capturaram o avião, mas, ao descobrir que transportava animais e não armas ou drogas, acharam que tinham sido vítimas de um engano. Levaram os animais para o zoológico Santa Fé de Medellín. Escobar ficou furioso. Ordenou que subornassem o vigia do zoológico - que recebeu o salário de cinco anos de trabalho - para trazer os animais de volta. Mas o resgate não foi suficiente para ressarcir os danos causados ao ego do traficante. Seus homens deixaram no lugar dos animais exóticos frangos, galinhas e outros bichos de granja.

Na mesma noite, os animais chegaram à Hacienda Napoles. E também nessa mesma noite o hipopótamo macho fez sua primeira vítima: um dos camelos. Como o tempo, o zoológico chegou a abrigar mais de 2.500 animais (entre eles elefantes, crocodilos e um casal de papagaios negros, único no mundo) e até um “parque jurássico” que incluía réplicas de dinossauros em tamanho real.

A propriedade foi decaindo com a decadência do próprio chefão. Quando Pablo Escobar morreu, em dezembro de 1992, o zoo particular do traficante foi saqueado e os animais que não morreram foram roubados, transportados para o zoológico e alguns foram parar na panela. Não foi o caso dos hipopótamos. O casal original teve uma robusta descendência e calcula-se que hoje, só nas cercanias da Hacienda Napoles (em Porto Victoria, às margens do rio Magdalena, a 100 quilômetros de Medellín) ainda vivam cerca de 20 deles. Sua presença consta do website da propriedade, confiscada pelo governo, que agora funciona como parque de diversões.

Há três anos, um macho e uma fêmea foram expulsos da manada, escaparam do local e viajaram 150 quilômetros para o norte do país através do rio. Diante dos riscos envolvidos, o ministério do Meio Ambiente da Colômbia determinou sua caça. Em 2009, um grupo de soldados matou o macho - batizado pelos moradores da localidade de Pepe - o que provocou protestos por parte de grupos ecologistas: eles exigem que os animais sejam trasladados e não assassinados.

Apesar de sua aparência gentil, o hipopótamo é um dos animais mais perigosos do planeta - agressivo, cioso do seu território e o que mais mata na África. Um macho pode pesar quatro toneladas, medir cinco metros de comprimento e atingir velocidades de até 30 quilômetros por hora.

Os hipopótamos que escaparam do zoológico de Pablo Escobar são os primeiros animais da sua espécie na história - e falamos de milhares de anos - a viver na América em liberdade.

Von Hildebrand calcula que pelo menos 30 hipopótamos vagam pela Colômbia e acabaram se tornando um grave problema: destroem as lavouras (comem 50 quilos de vegetais por dia) derrubam cercas, matam o gado e atacam camponeses e pescadores. “Eles se afastaram da manada porque foram expulsos pelo macho alfa e então saem à procura de fêmeas. O problema é que não estamos na África e eles não vão achá-las. E acabaram se convertendo numa espécie de monstros do Lago Ness caribenho”.

O documentário Pablo’s Hippos mostra que os hipopótamos que perambulam pela Colômbia constituem mais um da longa lista de absurdos de Escobar em seu país. Responsável por milhares de assassinatos e uma violência atroz na Colômbia, o chefão do narcotráfico via-se como um Robin Hood moderno que construía estádios, igrejas e distribuía dinheiro a rodo às comunidades carentes de Medellín. Era um homem amado pelos subalternos. “Aquele que morria por Pablo Escobar morria feliz”, lembra no documentário o chefe dos capangas de Escobar, John Jairo Velázquez Vázquez, conhecido como Popeye . Escobar estava convencido de que, no dia em que a droga fosse legalizada, seria dono da própria marca, a “Cocaína Escobar”. Num alarde de cinismo, anunciou que se entregaria à polícia, mas impondo as próprias condições. Mandou construir para si uma prisão luxuosa, onde fazia orgias e dirigia crimes e da qual fugiu em julho de 1992 quando soube que seria transferido, sem disparar um tiro e sob o nariz de centenas de soldados. “Na Colômbia desenvolvemos uma tolerância que chega às raias do absurdo”, diz Von Hildebrand.

“O que eu quis foi enfocar a marca mais absurda deixada pelo narcotráfico para contar tudo o que nos sucedeu. E descobri que os traficantes têm algumas semelhanças com os hipopótamos, pelo menos Pablo Escobar tinha. São gordinhos, imberbes, extremamente agressivos, não são particularmente inteligentes, mas são muito fortes, e tudo que fazem é em razão de território e fêmeas”, diz o diretor.

E ele enumera mais semelhanças: “Quando o líder da manada está velho, chega outro e o mata para assumir a liderança, como os traficantes de droga. Matam imediatamente qualquer um que cruze no seu caminho e são paranoicos, como os traficantes. Na Colômbia não temos o bode na sala, temos o hipopótamo na sala. E se o tirarmos daí ninguém o vai querer. Estamos cercados de hipopótamos, eles estão se reproduzindo e temos que fazer alguma coisa a respeito”, conclui o cineasta. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.