O terror à espreita na obra de Max Ernst

Masp traz ao Brasil série de colagens onde o artista retrata uma semana de paixões e violências

21 de abril de 2010 | 05h00

Detalhe de uma das 184 colagens criadas pelo artista em 1933. Foto: Divulgação

 

CAMILA MOLINA - O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO - Só um avestruz e. claro, os cegos, como disse o surrealista alemão Max Ernst (1891-1976), não poderiam perceber a desgraça e a violência que flutuavam numa Europa entre Guerras. A frase do artista se referia ao ano de 1933, quando ele pintou o quadro Europa Após a Chuva e ainda criou a famosa série de colagens gráficas Uma Semana de Bondade, que, pela primeira vez, é apresentada no Brasil, em exposição a ser inaugurada nesta quinta, 22, para convidados e na sexta-feira para o público no Masp.

 

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Como no relato bíblico da criação do mundo em sete dias, Ernst desenvolveu a série-novela Uma Semana de Bondade, começando seus capítulos no domingo e terminando no sábado. Para cada um dos dias prevalece um tema e um elemento (a lama, a água, o fogo, o sangue, o negro, a vista e o desconhecido), retratados em cenas nas quais figuras humanas se transformam em híbridos de homem e animal (leão, dragão, pássaro e galo), tornando-se protagonistas ou espectadores de orgias, assassinatos, desgraças, terror e paixões. Surrealista que era, Ernst conduz as narrativas de tensões - com a 2ª Guerra a estourar - com elementos imaginários que expandem os significados de cada imagem, em preto e branco.

 

Totalidade. Com a mostra Max Ernst - Uma Semana de Bondade, se faz uma oportunidade única de ver reunidas, afinal, as 184 obras que formam a série em sua totalidade, pertencente ao colecionador francês Daniel Fillipacchi. É uma exposição densa, que chega a São Paulo depois de ser exibida em museus europeus.

 

Em 1933, durante uma estada no palácio da duquesa de Gramont em Vigoleno, na Itália, Max Ernst criou as colagens em forma de obras gráficas, que agora poderão ser vistas no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp). Apropriando-se de ilustrações de folhetins do século 19, o pintor recriou, unindo ainda a técnica da gravura sobre madeira, cenas críticas às convenções nas quais mesclou a iconografia novecentista com o imaginário surrealista. "Uma Semana de Bondade não é de modo algum um exercício mais da vanguarda, nem um desenvolvimento dos princípios do surrealismo. É, ao contrário, uma obra determinante em si mesma, um dos trabalhos mais importantes do século", afirma Pablo Jiménez Burillo, diretor do Instituto de Cultura da Fundação Mapfre da Espanha, que há um ano está promovendo a exposição itinerante, desde Madri.

 

O conjunto inteiro de 184 colagens (era desejo de Ernst que as obras não fossem separadas) já foi mostrado desde 2008 nos museus Albertina (Viena), Max Ernst (Brühl), Kunsthalle (Hamburgo), na Fundação Mapfre (Madri) e no D’Orsay (Paris). "É uma exposição muito complicada de se fazer porque obras sobre papel sofrem muito com o deslocamento", diz Burillo.

 

"Depois do Masp, as colagens ficarão guardadas por alguns meses e talvez em outubro possamos apresentá-las no México, por ser um país muito ligado ao surrealismo. Aí será a última vez, porque as obras deverão descansar", continua o diretor da Mapfre. Segundo ele, a mostra consumiu cerca de 100 mil - e na Espanha rendeu um alentado catálogo com reproduções de todas as obras em seu tamanho original, além de textos que fazem extensas relações do trabalho com o percurso de Ernst, suas referências e até uma conexão com o cinema.

 

Blasfêmia. Certa singeleza com o terror à espreita já era uma imagem anunciada em obras anteriores à série Uma Semana de Bondade de Max Ernst, como em seu quadro de 1924 sob o título Duas Crianças Ameaçadas por um Rouxinol. Mas quando o artista exibiu pela primeira a vez suas colagens, em 1936, no Museu de Arte Moderna de Madri, 5 das 184 cenas da série foram censuradas por serem consideradas blasfemas (eram obras em que aparecem o Sagrado Coração de Jesus e uma mulher crucificada).

 

A técnica usada por Ernst em Uma Semana de Bondade é de impressionante minúcia e delicadeza, fazendo-nos aproximar dos originais para perceber como realmente foram feitas as colagens, quase sem nenhum relevo e heterogeneidade. Como está em texto da apresentação da mostra, esse feito do artista é uma chave surrealista também. "Não é possível estabelecer com total segurança a intervenção do artista", escreve Werner Spies no catálogo, chamando a atenção para uma dicotomia que se faz entre original/reprodução.

 

Antes de realizar Uma Semana de Bondade (o título refere-se a uma associação parisiense de bem-estar social), Ernst já havia feito dois outros livros com colagens, o La Femme 100 Têtes e Rêve d’Une Petite Fille Qui Voulut Entrer au Carmel. A série que se apresenta no Masp foi criada em 1933, mas só em 1934 editada em forma de livro, separado por capítulos em que cada dia da semana ganhou uma cor: domingo-roxo, segunda-verde, terça-vermelha, quarta-azul, e, por fim, a quinta, a sexta e o sábado amarelos. A montagem da exposição, no primeiro andar do museu, é feita por segmentos coloridos que acompanham essa indicação do artista. Para completar, no dia 27, às 15h30, a historiadora Annateresa Fabris vai fazer palestra especial sobre esse trabalho de Ernst. As vagas são limitadas.

 

Max Ernst - Uma Semana de Bondade - Masp. Avenida Paulista, 1.578, tel. 3251-5644. 11h/ 18h (fecha 2ª). R$ 15 (3ª grátis). Até 18/7

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