O tempo perdido e reencontrado numa fábula budista

Como é possível não honrar a própria palavra? Talvez, num mundo marcado pelo pragmatismo das alianças de ocasião, este seja o grande legado do filme de Rémi Bezançon e Jean-Christophe Lie

O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2013 | 02h19

Há um momento de Zarafa em que o garoto precisa tomar uma decisão. Fazer uma escolha difícil. Logo no começo do filme, ele toma sob sua proteção a girafinha e promete à mãe dela que vai protegê-la. Para ficar com Zarafa, ele atravessa o deserto e faz uma viagem de balão, do Egito até a França, onde Zarafa é entregue como presente do paxá ao rei da França. O paxá busca uma aliança para proteger seu país dos turcos. O rei francês não só nega a ajuda como aprisiona Zarafa em seu zoológico. E agora, neste momento, o garoto, que fez de tudo para libertar Zarafa, percebe que terá de fazer uma escolha.

Como é possível não honrar a própria palavra? Talvez, num mundo marcado pelo pragmatismo das alianças de ocasião, este seja o grande legado do filme de Rémi Bezançon e Jean-Christophe Lie. A lição que o menino dá. No limite da ansiedade e do desespero, impotente diante dos grilhões que aprisionam Zarafa, o menino ouve a voz - do coração. E fala com a girafa. Hollywood faz animações extremamente realistas - o circuito de Indianápolis é recriado em detalhes em Turbo - para tornar crível que caracóis falem, ou disputem uma corrida. Na animação estilizada de Bezançon e Lie, a girafa não fala. Tudo bem, ela talvez fale com os olhos, como as vacas também falam, mas a palavra é reservada para esse momento. Preste atenção no que Zarafa diz.

Na entrevista acima, Bezançon conta como foi marcado pela experiência de Peter Pan. A animação da Disney, de 1953, dirigida por Hamilton Luske, foi o primeiro filme que ele viu. Alguns - muitos - dos temas de Peter Pan perseguem Bezançon até hoje - o paraíso perdido da infância, o difícil aprendizado para a vida adulta. Zarafa começa com seus personagens crianças - o menino, a girafa. Acompanha-os pela vida, e a vida, você sabe, é feita de perdas e ganhos. Muitas vezes, você pensa que está perdendo algumas coisas, mas pode ser que elas estejam somente se transformando.

Existem duas vacas gêmeas na história, e elas são budistas, você vai descobrir numa cena importante. E o que significa - vacas budistas? No universo em transformação de Zarafa, nada nem ninguém, muito menos o homem, deixa de fazer parte do movimento cósmico. É uma ideia que um autor muito mais ambicioso - e até reconhecido - que Bezançon, Terrence Malick, também desenvolve em Amor Pleno, outra estreia de amanhã nos cinemas da cidade. Acredite - Zarafa é melhor.

Boa parte da beleza de Zarafa vem da forma como a história é contada, por este velho que, numa aldeia africana, reúne as crianças ao pé do fogo. E conta a história de liberdade, de amizade. De como um menino deixa de ser escravo, como ele arranja um amigo beduíno e fica amigo da girafa. Quem é esse velho narrador é uma coisa que você só descobre no desfecho. Tempo perdido, e reencontrado. Como Ratatouille, outra animação, Zarafa reinventa Marcel Proust. Às vezes, é preciso uma pequena girafa para dar lições de arte, e vida, ao espectador do século 21. / L.C.M.

CRÍTICA

JJJJ ÓTIMO

JJJJJ

ÓTIMO

COMO NÃO

HONRAR A

PALAVRA? O MUNDO CABE

NO CORAÇÃO

DA GIRAFA

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