O tempo não parou

Vinte anos sem Cazuza não fizeram de João Araújo um pai mais conformado. Quando o executivo percebeu que tudo poderia ser diferente, o filho se foi

Entrevista com

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2010 | 00h00

As histórias sempre chegaram a João Araújo de tudo que é lado. Às vezes tortas, às vezes retas, estavam nas bocas de informantes, amigos, músicos, jornalistas, policiais. Não que Cazuza, seu filho, precisasse de mensageiros. Quando descobriu que havia sido "tocado pela aids", em 1988, conforme dissera um médico da família, o próprio decidiu espalhar ao mundo. O rapaz que cantava "Brasil, mostra tua cara" não poderia mergulhar os olhos fundos no travesseiro. Vinte anos depois de Cazuza ter sido levado pela vida louca, intensa e breve que criou por não suportar o cenário com mãe superprotetora e pai chefão de gravadora, João Araújo, de 74 anos, começa a esboçar seu livro com histórias que ele mesmo protagonizou. Memórias não apenas sobre o filho Cazuza, mas de todo um universo de artistas que viu ganhar forma, como executivo de gravadora e homem que ficou por 35 anos só na Som Livre, da Globo. João recebeu o Estado na sede da Som Livre, em Botafogo, na última segunda-feira. Falou por quase três horas sem desviar de memórias que podem machucá-lo de novo. "Você não sabe o que é perder um filho todos os dias. A morte repentina dói de uma vez só. A morte anunciada dói todos os dias." Mas a vida de João não foi só Cazuza. Ele lançou gente que não acaba mais, em uma lista que inclui de Novos Baianos a Djavan, e que só não tem um outro nome bacana porque João achou que aquele cantorzinho ali, em especial, não tinha nada de mais...

É sério que o senhor não quis contratar Roberto Carlos quando ele estava começando a carreira, nos anos 60?

Este é o meu maior "desorgulho". Pode escrever essa palavra que é isso mesmo, "desorgulho". O produtor da gravadora Philips, na época, era o Luis Bittencourt, que não contratava ninguém sem falar comigo. Quando conheci o Roberto Carlos, achei que tinha uma voz romântica, cantava bem, músicas boas, mas nós tínhamos quatro ou cinco cantores daquele jeito na gravadora. Ele não trazia nenhum trunfo do tipo "já se apresentou para tantas mil pessoas". O Bittencourt perguntou se eu contrataria e eu disse que não. O Roberto Carlos parecia um dublê de outros cantores conhecidos. Fui franco e honesto, e me arrependo por isso.

Quando o senhor ouve falar de seu filho Cazuza, não pensa em contar a sua própria versão da história?

Não, a história foi contada por ele mesmo, até porque foi ele quem revelou que tinha aids. Ele dizia que não podia fazer uma música como "Brasil, mostra tua cara" e não mostrar a própria cara. Mas eu vou fazer o meu livro. Já dei uns primeiros passos. O Cazuza vai entrar como uma consequência lógica pelo fato de eu ser o pai dele, mas será um livro de memórias com outras histórias.

Quando os médicos descobriram a doença de Cazuza, o senhor foi contra a revelação na mídia?

Não, eu não podia opinar. Eu não tinha opinião formada, o sofrimento foi tanto, o susto foi tanto... Você não sabe o que é ter um filho único e saber que vai perdê-lo. É uma morte anunciada, não há nada pior. A morte repentina dói de uma forma só, a morte anunciada dói todo dia.

Apesar da pouca informação na época sobre a doença, soube logo que a morte dele seria certa?

Eu não esqueço do médico me ligando e dizendo "seu filho foi tocado pela aids". Não me esqueço da palavra "tocado". Levamos o Cazuza para os Estados Unidos e fomos recebidos pelo doutor Sheldon Wolff, que havia acabado de ser nomeado pelo (então presidente norte-americano) Ronald Reagan para comandar o programa de combate à aids. Fui para a primeira reunião com os médicos e saí de lá muito decepcionado e muito preocupado.

Por quê?

As recomendações deles eram: não podíamos beijar o Cazuza, não podíamos comer no prato em que ele tivesse comido, não podíamos urinar no mesmo local que ele. Só coisas que o isolavam (pausa). Imagine você tratando seu filho, o amor da sua vida, isolado de você. Mas não segui as restrições, nessa eu não poderia entrar. E o Cazuza fazia testes com a gente do tipo (pega um copo de água na mesa e toma um gole). Ele bebia e depois dizia: "Papai, bebe um pouco aí também." E eu tomava tudo. Sabe, eu cheguei a temer pela loucura do Cazuza. As doses cavalares de AZT faziam ele viver personagens dentro do hospital. Certa vez ele virou o sheik de Agadir, ou coisa assim, botava uma coisa na cabeça e dizia que era isso.

As pessoas estão perdendo o medo da aids, já que ela não deixa mais mártires como Cazuza?

Sim, e por incrível que pareça muitos jovens ainda fazem sexo sem camisinha não por falta de informação, mas pela velha versão de que fazer sexo com camisinha é como comer o dropes com papel.

Mão superprotetora, pai presidente de gravadora. Cazuza não teve de fabricar uma rebeldia para romper com uma possível imagem de garoto mimado que poderiam fazer dele?

Estou de acordo com você, ele queria saber o que ele era, qual a identidade dele, até onde ele poderia ser importante e significar alguma coisa sem a mão protetora do pai e da mãe. É isso. Um dia ele me ligou e disse "encontrei a Bebel Gilberto. Ela está com umas pessoas indo para Roma, eu quero ir com eles". Eu falei: "Então tá, a gente fala com calma quando você voltar aqui pra casa". E ele "não pai, estamos indo hoje". Isso era umas 13h30. Eu tinha que providenciar compra de dólares, passagens, tudo. "Pai, tem que ser hoje." Olha rapaz, quando você tem um filho único fica meio bobo, sabe? Eu fiz umas coisas... Arranjei passagem e dólar para ele em quatro horas. Consegui tudo que queria. Lá em Roma uma amiga emprestou dinheiro para ele e eu a paguei depois.

Com tudo isso, pensando hoje, o senhor diria que fez mais bem ou mal para seu filho?

Eu fiz o que um pai faria. O pai se arrepende, mas faz. O arrependimento é depois. Eu não poderia mudar a personalidade do Cazuza. Ele, antes de tudo, era um libertário, um inovador, que queria mudar os tempos.

Se ele tinha esse espírito libertário, por que não procurou sua liberdade financeira também? Por que sempre pedia dinheiro para o pai?

Ele tentou, só que eu não deixei.

Não? Como assim?

Não. Depois que eu o expulsei de casa, um dia em que ele disse que ia para a Bahia de qualquer jeito, recebi uma informação de que a Polícia Federal já estava se preparando para fazer uma incursão no apartamento em que ele estava morando. Ele foi atrás de uma garota cuja base de rendimento era a venda de drogas. Fui lá e tirei ele de lá. Falei: "Esquece nossas desavenças. Isso não é desavença, é salvação. Ser preso pode ser até glamour, mas agora não. Agora não existe mais glamour, existe morte. Estamos no AI-5." E aí ele ficou comigo até o fim da vida, e meu amor era tanto que eu fazia qualquer coisa por ele.

Por exemplo?

Eu já havia pedido encarecidamente para os amigos não darem drogas a ele, já doente, mas continuaram a dar. Muita gente se aproximava dele parar tirar vantagens. Eu botei um espião lá onde ele ficava para me avisar de tudo. Paguei um segurança para afastar algumas pessoas que faziam mal ao Cazuza. Passava para ele o nome do cara e dizia que devia aplicar-lhe o "número 1", se não adiantasse eu pedia o "número 2".

E o que era o "número 2"?

Era enfiar o cassete. Mas, como dizia Che Guevara, endurecer sem perder a ternura. Era para dar uns tapas sem deixar marcas e dizer o seguinte: "O seu limite termina na Praça 15. Sempre que passar de lá você estará correndo perigo."

Existem músicas inéditas do Cazuza?

A Lucinha tem algumas que o Cazuza deixou. Ele datilografava muitas letras. Mas tem uma coisa de que a gente não gosta. Às vezes chega gente lá em casa dizendo que tem letra do Cazuza psicografada. Eu compreendo, acredito nisso também, mas não podemos fazer isso.

Chegou a ver alguma dessas letras ditas psicografadas?

Sim, vi, mas logo encontrei três ou quatro palavras ali que o Cazuza nunca teria escrito. Não preciso nem ver as outras.

O senhor teve tempo para ser o pai que gostaria de ter sido?

Não, me faltou tempo. Eu fui o pai que queria ter sido um pouco tarde demais, quando Cazuza já era um rapaz. Só ali eu fiz uma reflexão, começamos a conversar como adultos, sobre sentimentos nossos, a falta que um fazia para o outro. Começamos a dar beijos e abraços. Me arrependi muito por não ter começado a fazer isso antes.

E não começou por quê?

Antes, pra mim, ele era o menino que não ia ao colégio, que tinha tirado nota ruim. E eu era o castigador. Pensava que ele era ruim e eu tinha que bater nele para ele ficar bom.

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