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O tempo e o vento

Santo Agostinho disse que sabia o que era o tempo, desde que não perguntassem a ele

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

09 de fevereiro de 2022 | 03h00

A máxima de Sartre sobre o inferno estar nos outros deveria ser mais específica. Como? A resposta vem do inglês: timing. fícil traduzir em um único termo na nossa língua. Trata-se de uma adequação cronológica: usar a quantidade de tempo adequada para alguma tarefa. De outra forma: ter sensibilidade em não ser rápido ou lento demais para uma fala, uma ação, alguma providência ou reação.

Vamos listar alguns motivos de brigas de casais. Vá identificando, querida leitora e estimado leitor, quais os que permeiam suas raivas. Ele ou ela: a) passa tempo demais ao celular; b) demora muito para se arrumar; c) fala longamente para dizer pouca coisa objetiva; d) anda de forma rápida ou lenta em excesso; e) usa muito ou pouco tempo para organizar as coisas da casa... Em resumo: tudo tem relação com timing.

Timing destrói casamentos, derruba carreiras, solapa impérios. É a chave dos divórcios, do fim de uma biografia política ou do poder de uma empresa. Não apenas o inferno está no outro, o mundo diabólico alheio é o timing. Identifique o que o irrita e haverá, sob a capa da raiva, uma noção de tempo adequado. Pense em brigas de trânsito: quase sempre envolvem variantes da física clássica: velocidade, distância e tempo.

Por que o WhatsApp criou a possibilidade de ouvir mensagens de áudio em forma acelerada? Timing! Posso transformar o “podcast” da pessoa sem senso em breve recado com voz de Pato Donald. Eis a função redentora da tecnologia.

Santo Agostinho disse que sabia o que era o tempo, desde que não perguntassem a ele. Se o grande teólogo tivesse de explicar, já não saberia. Eu também não consigo definir o tempo. Bem achava que sabia, até ler Uma Breve História do Tempo (Stephen Hawking). A partir daí, entendi Agostinho mesmo: não sei definir o tempo, mas sei quando ele avança demais ou se arrasta de forma fatal...

Há pessoas que param para conversar assim que chegam ao topo da escada rolante, causando um efeito desastroso atrás. Todos já sofreram com os seres que decidem que a porta do elevador aberta é o momento ideal para longas despedidas. E o amigo que necessita ir ao banheiro apenas depois de a conta ter sido paga e todos terem se despedido? Não controlamos a bexiga alheia, nem o timing da humanidade.

No vasto inferno do convívio social, somos os demônios uns dos outros. Manda uma boa etiqueta que sejamos tolerantes para não aumentar o sofrimento. Verdade, porém, se de vez em quando se punisse em praça pública quem manda áudios longos no celular, o exemplo poderia melhorar muito a vida... Esperança?

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