O tempo do vento em sudoeste

O mítico filme de Eduardo Nunes com Simone Spoladore resume toda a vida de uma mulher em um único dia

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2012 | 00h24

É curioso que, justamente hoje, quando o Canal Brasil reprisa Casa de Areia, esteja estreando Sudoeste, o longa de Eduardo Nunes apresentado no Festival do Rio do ano passado. O longo caminho até chegar ao cinema dá conta das dificuldades que o mercado impõe a filmes de um perfil diferenciado. O próprio Andrucha Waddington, que dirige Casa de Areia, está estourando nos cinemas com outro filme de perfil completamente diverso - a comédia Os Penetras que, em menos de uma semana (na quarta-feira), já havia ultrapassado 500 mil espectadores. Casa de Areia passa-se nas dunas, fotografadas em cores rigorosas. Sudoeste passa-se numa paisagem molhada, fotografada em preto e branco. Apesar das paisagens e texturas, os dois filmes são irmãos na construção de um tempo mítico. As duas mulheres de Casa de Areia podem ser, de repente, a mesma, em diferentes fases da vida. A construção temporal de Sudoeste também propõe um enigma para o público. E ambos, de alguma forma, remetem a um mito maior - o de Limite, o cult de Mário Peixoto.

Há dois anos, o repórter visitara o set de Sudoeste, em Arraial do Cabo, numa região próxima daquela em que Paulo Cesar Saraceni situou seu famoso documentário Arraial do Cabo, considerado uma das pedras de toque do Cinema Novo. Batia o vento na salina - o vento, o sudoeste, é decisivo no filme de Eduardo Nunes. Adquire a dimensão de personagem, como em certos relatos míticos - o mito, como disse Júlio Bressane em entrevista ao Estado nesta semana, 'nos socorre quando é impossível falar sobre as origens'. O Tempo e o Vento, romance cíclico do escritor gaúcho Erico Verissimo, Cem Anos de Solidão. No desfecho do livro cultuado de Gabriel García Márquez, o vento que se abate sobre Macondo fecha um ciclo que resume a maldição que atinge a família Buendía e condena seus integrantes à trágica solidão do título.

O Tempo e o Vento e Cem Anos de Solidão não foram as únicas fontes de pesquisa do diretor Nunes. Ele usou também filmes de Andrei Tarkovski. Foram dez longos anos de preparativos que agora, finalmente, chegam ao público, depois de passar - e receber prêmios - em festivais. No Rio, Sudoeste ganhou o prêmio da crítica e o especial do júri. Um terceiro Redentor foi para o fotógrafo Mauro Pinheiro Jr., dividido com o Petrus Cariry de Mãe e Filha. Sudoeste começou a nascer quando o pai do diretor teve um derrame. A família se revezava junto ao leito, em noites intermináveis. Foi ali, diante do pai imobilizado que começou a surgir a história estranha, fantástica do filme. Um dia na vida de uma mulher. Ou melhor, toda a vida de uma mulher sintetizada em um dia, o da Folia de Reis.

Ela nasce de manhã e morre ao entardecer. Nestas poucas horas, cumpre uma trajetória que é longa, pois morre de velha. O tempo, que para a protagonista é acelerado, passa lentamente para os outros. O irmão, um garoto, não a reconhece como mulher madura nem como velha. A bruxa interpretada por Léa Garcia - atriz cujas origens estão em Orfeu Negro, de Marcel Camus, e depois, em obras clássicas do Cinema Novo - é decisiva, menos por lançar um sortilégio sobre a protagonista, mas por ter a compreensão do que ocorre com a personagem de Simone Spoladore.

Sudoeste já nasceu contra a corrente, como um convite à contemplação. No debate após a projeção do filme, no Festival do Rio, o diretor conta como encontrou sua locação - uma antiga vila de salineiros, abandonada havia 40 anos, no Pontal do Massambaba, em Arraial do Cabo. "Foi quase um milagre. O roteiro que escrevi com Guilherme Sarmiento se passa numa vila de pescadores que existia apenas na nossa imaginação. Como o filme tem um tom de fábula, era preciso encontrar um lugar ermo, que transmitisse essa ideia de abandono, do tempo atuando sobre as coisas e as pessoas."

Nunes e seu fotógrafo desconsideraram a possibilidade de fazer seu filme em cores. "O céu azul, colorido e belo iria prejudicar o filme. O preto e branco, o formato de janela, 2.35, ideal para captar a horizontalidade da região, o figurino, a arte, tudo foi produzido com extrema coerência para retratar a ação do tempo na vida da personagem", avalia o diretor. Mauro Pinheiro Jr. acrescenta - "Filmamos em 16 mm e ampliamos digitalmente para 35 mm. O bom do processo digital é que permite um controle enorme, mas nós fizemos questão de dar uma 'erradinha', coisa que só os profissionais vão notar. Deixamos o branco invadir um pouco o nosso preto, para não ficar correto demais. Na verdade, e de forma muito consciente, não exercemos um controle rígido do processo ótico. Abrimos mão da precisão tecnológica como um recurso de linguagem."

Um filme tão especial exigia uma atriz também especial. Em 2001, iniciou-se uma década prodigiosa para Simone Spoladore, com filmes como Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, Desmundo, de Alain Fresnot, Elvis e Madona, de Marcelo Lafitte, e Luz nas Trevas, de Helena Ignez. Cada filme possui seu desafio, mas Simone reconhece que Sudoeste foi o maior de todos. Afinal, o filme transforma em concreta uma personagem que é quase uma abstração.

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