JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

O tempo corre e alcança João Donato

Show com 41 anos de atraso comprova: em 1973, o pianista já estava em 2014

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2014 | 02h38

Quarenta e um anos depois de gravar Quem É Quem, João Donato fez o primeiro show com o repertório deste álbum de 1973 na noite de quinta-feira, no Sesc Pinheiros. Causou comoção com nostalgia, riso com sutileza, surpresa com êxtase e um certo sentimento de culpa. Quando se passam 41 anos para que um disco considerado o mais importante da carreira de um homem de 80 e um dos mais nobres da discografia brasileira chegue ao palco (a Revista Billboard já o considerou assim e Caetano Veloso acaba de colocá-lo em sua lista pessoal, enviada ao jornal espanhol El País), é porque algo de sério deu errado. A gravadora o desprezou, os críticos não entenderam, as pessoas não o compraram. Não importa mais. Pouco tempo depois de Donato subir ao palco, bastava estar vivo para sentir a felicidade sendo beliscada por algum sentimento qualquer de impotência.

Não há em Donato uma nota que o faça difícil, um experimentalismo que o torne intransponível. A demora que o mundo levou para abraçá-lo pode ter explicações metafísicas no tempo e no espaço. Em 1956, quando a bossa nova começava a ser desenhada, sua cabeça estava no jazz e na música afro-latina do final dos anos 60. Em 1973, quando o soul se alinhava com a música brasileira, suas mãos já tocavam em algum piano do século 21. Donato pagou o preço por viver os anos errados nos lugares certos.

A prova dos nove foi tirada na noite em que Quem É Quem foi executado nota a nota, faixa a faixa, com alguns improvisos e um tanto de histórias que fizeram os 31 minutos e 48 segundos do disco original virarem 1h30. Como se o tempo ajustasse os ponteiros com o universo, sua música sai hoje sem poeiras de bossa nova nem pretensões de vanguarda cool. O mundo, 40 anos depois, o alcançou.

A seu lado estavam os sete instrumentistas do Bixiga 70, jovem grupo de São Paulo, dos mais celebrados nos últimos anos por fazer um instrumental hipnótico e embriagado de funk, música africana e caribenha. Uma sensação que enche as casas de shows em que se apresenta e que bem poderia estar no estúdio da Odeon, em 1973, gravando justamente Quem É Quem.

A música de Donato tem sua força no groove, o que ele prefere chamar de looping. Esses giros incessantes e cheios de suingue, de baixo unido em matrimônio com bateria, guitarra em riffs malandros e uma cama de metais sobrepostos para deixar as teclas do Fender Rhodes brincarem à vontade, são a chave que o deixa atemporal. A estética "nova" dos anos 70, ressuscitada pela lógica de movimentos cíclicos, sustenta algumas dezenas de formações que passaram a se colocar de joelhos diante da imagem de homens como João Donato e Eumir Deodato nas últimas décadas.

As diferenças de idade e gerações desaparecem quando o pianista chama Mariana Aydar e Tulipa Ruiz para cantá-lo. À vontade em um universo que sempre foi delas também, não se comportam como se cantassem um clássico de Tom Jobim com 10 toneladas nos ombros, mas como quem acaba de descobrir uma canção nova e fresca. Mariana não dançou mais por falta de espaço em Cala Boca Menino e cantou com leveza, sem parecer viver um pesadelo por substituir a voz original de Nana Caymmi em Mentiras. Tulipa, sentada ao lado do pianista, se entregou como criança em A Rã, entusiasmou-se com Flor de Maracujá e pintou o quadro mais belo da noite quando cantou a sinatriana Até Quem Sabe, caminhando por cantos perigosos da alma.

Marcos Valle tinha de estar lá em Cadê Jodel e Fim de Sonho. Foi ele quem insistiu com a Odeon para que gravasse o disco de Donato em 1973. Muito a contragosto, e só depois de Marcos Valle prometer cuidar do amigo, a companhia aceitou a gravação como se fizesse um favor. E fez. Só teve o azar de não viver no mesmo tempo e no mesmo espaço que João Donato.

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