O teatro único de James Joyce

Entre 1914 e 1915, James Joyce vivia um momento luminoso: prestes a terminar Retrato do Artista Quando Jovem, ele já esboçava os primeiros capítulos de Ulisses. Entre um e outro, porém, Joyce escreveu um drama solitário, Exilados, única peça de teatro de sua obra que, por surgir entre dois clássicos e não apresentar as mesmas inovações formais, foi confinada a um plano secundário, sem jamais ganhar uma edição nacional. O reparo finalmente ocorre nesta semana, quando a editora Iluminuras lança a primeira versão brasileira de Exilados (224 páginas, R$ 42), em competente tradução de Alípio Correia de Franca Neto."Como tudo o mais que Joyce escreveu, Exilados é também um registro intensificado de suas experiências pessoais", afirma Franca Neto, persistente no valoroso trabalho de verter para o português as obras menos conhecidas do escritor irlandês, como Música de Câmara e Poemas, Um Tostão Cada, já editadas pela Iluminuras. "Há ecos, por exemplo, do início do relacionamento amoroso entre Joyce e Nora, quando os dois partiram da Irlanda, bem como o ato de exorcizar o sentimento de ciúme que perturbou o escritor em sua viagem de volta, em 1909, quando um amigo, Vincent Cosgrave, insinuou que tivera um caso de amor com sua mulher."Fruto também de sua admiração e reverência pela dramaturgia do norueguês Henrik Ibsen, a peça inscreve-se na tradição realista-naturalista do teatro do século 19. Conta a história de um triângulo amoroso vivido por Richard Rowan, artista em luta contra as convenções burguesas limitadoras; sua mulher, Bertha, de caráter forte e insubmisso; e Robert Hand, jornalista de temperamento sensual.O escritor distribuiu uma série de notas ao final do texto que, mais que simples explicações ou indicações de composição de personagens, oferecem dados significativos sobre sua concepção literária, especialmente a forma como desenvolveu a técnica do monólogo interior. "As notas são preciosas, pois constituem um dos poucos documentos em que Joyce comenta sobre seu processo de criação. Ele tira proveito das convenções sociais, transformando, por exemplo, Robert em um personagem farsesco", comenta Franca Neto, observando ainda a temática da peça, extremamente moderna para a época. "À primeira vista, a peça trata de um adultério, mas, na verdade, Joyce mostra como é frágil a divisão da possessão ao fazer com que amor e amizade realizem-se livremente, sem qualquer tipo de restrição."Ao estudar detalhadamente a obra de Joyce, o tradutor brasileiro acredita que a leitura de Exilados tem de ser irônica por ser profundamente joyciana, ao contrário do que pregam os detratores da peça. "Ele constrói toda sua obra a partir dos fundamentos que ele acabou de destruir na obra anterior", afirma Franca Neto. "Assim, toda sua produção equivale a um grande manuscrito, pois versos retornam e frases inicialmente sem sentido adquirem nexo quando utilizadas novamente em outro contexto."Leia mais.

Agencia Estado,

04 de maio de 2003 | 21h25

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