Gabriel Cabral/Divulgação
Gabriel Cabral/Divulgação

O teatro sagrado de Antunes

Pesquisador da obra de Antunes Filho, Sebastião Milaré retrata o método de criação do diretor

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2010 | 00h00

Não é a primeira vez que Sebastião Milaré investiga o legado de Antunes Filho. Na década de 1990, o pesquisador escreveu Antunes e a Dimensão Utópica, livro no qual se detinha na biografia do encenador e contextualizava sua obra no percurso de evolução do teatro paulista e brasileiro. Com Hierofania - O Teatro Segundo Antunes Filho, Milaré aprofunda seu trabalho como observador privilegiado do diretor e esmiúça seu método de formação de atores no CPT. "Um projeto que passa pela formação intelectual dos intérpretes e por um profundo processo de autoconhecimento", comenta o autor.

Como você mesmo mostra em seu livro anterior, Antunes é um herdeiro desses encenadores europeus que vieram para cá, do TBC. Como descendendo diretamente de tudo isso, ele conseguiu se destacar e cunhar uma linguagem própria?

Primeiro, pelo seu próprio talento. Depois, pela sua inquietação. Antunes tem uma preocupação com o desenvolvimento do ator brasileiro dentro de sua cultura. Na primeira peça que dirigiu profissionalmente, Week-End, do Noel Coward, já é curioso notar que as críticas na imprensa faziam uma ressalva dizendo que seus atores pareciam muito brasileiros em cena, e não britânicos.

O método do Antunes é tributário do método Stanislavski. Como o realismo se transforma dentro do teatro dele, como superar o realismo dentro do realismo?

É uma questão de aprofundamento. No Antunes já se coloca um outro conceito de realidade, que busca dados espirituais, que localiza dentro do comportamento racional do intérprete os arquétipos que o movem.

Guiado por uma psicologia de base junguiana?

Sim, os arquétipos, o inconsciente coletivo. E por isso ele busca muito os mitos, o pensamento arcaico. São essas as questões que alimentam a noção de realidade no teatro dele. Então se dá um aprofundamento nesses aspectos impossíveis de serem verbalizados. No teatro do CPT, o texto pode dizer uma coisa, mas o corpo do ator está comentando uma outra. É aí que ele supera o realismo.

Existe um senso de afastamento na pesquisa do Antunes. Um afastamento no sentido de que o ator não deve usar ou buscar a própria emoção. Qual o tamanho da influência de Bertolt Brecht?

O Brecht é importante como princípio, como alguém que alertou. O Antunes parte dessa constatação de que o teatro é um jogo. Mas o afastamento é feito dentro do ator, como um processo que lhe é necessário. O ator deve estar distanciado da emoção. É aí que se coloca a diferença para o Stanislavski.

Por isso o Antunes fala na necessidade de sensibilidade e não de emoção.

Exato. O Antunes elimina a emoção. E faz isso por uma razão muito clara. Quando nos emocionamos, temos uma reação física. Então, um ator não pode se emocionar. Ele tem que estar afastado da emoção do personagem para poder iludir o espectador. A emoção induz a tensão física. E se o ator estiver tensionado, ele irá cair em armadilhas cruéis.

No seu estudo, você parte do Macunaíma. Qual o impacto da estreia desse espetáculo e o que havia ali de essencialmente novo para a época?

O tempo no teatro tem que ser necessariamente diverso do tempo da vida. Na fábula do Macunaíma, ele viaja por muitos tempos. E, depois dessa encenação, isso passou a ser muito comum no teatro. Além disso, a própria maneira de contar a história, a forma como o Antunes pegou a rapsódia do Mario de Andrade e a transformou em matéria cênica. Com todas as liberdades, destruindo códigos que podiam aprisionar as cenas. Ele abriu tudo e admitiu todas as influências. O que fez com que, na época, ele fosse muito criticado no Brasil e muito elogiado no exterior. Por essa aceitação de influências de Fellini, de Picasso, de tudo que chegava até ele. Isso resultou num espetáculo de grande variedade de intenções. De uma maneira que era inédita no teatro brasileiro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.