O teatro do país em papel de destaque editorial

Na esteira do lançamento do primeiro volume de História do Teatro Brasileiro, novos títulos chegam

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2012 | 03h08

A bibliografia sobre as origens e a evolução do teatro brasileiro não é muito extensa. Até o começo do século passado não havia nenhuma obra específica a respeito da dramaturgia brasileira. Foi só em 1904 que Henrique Marinho publicou alguns apontamentos que serviram de base aos pesquisadores da área. Nos anos 1920, Carlos Sussekind de Mendonça tentou contar essa história, mas só o primeiro volume de sua obra foi publicado. Nos anos 1930, Lafayette Silva fez nova tentativa. O resultado, segundo o estudioso João Roberto Faria, não difere dos exemplos anteriores: muita informação e pouca reflexão sobre o assunto. Vieram depois estudos mais densos, como os de Ruggero Jacobi (Teatro in Brasile, 1961) e Sábato Magaldi (Panorama do Teatro Brasileiro, 1962). Uma das últimas grandes tentativas historiográficas foi a de Décio de Almeida Prado (Teatro Brasileiro Moderno), mas a obra só contempla o período compreendido entre 1930 e 1980. O fundador da Editora Perspectiva, Jacó Guinsburg, dá agora sua contribuição com o lançamento de História do Teatro Brasileiro, obra ambiciosa com dois volumes sob direção do professor João Roberto Faria e planejamento editorial de ambos.

O primeiro volume chega à livrarias no dia 25. O segundo ainda não tem data de lançamento. Simultaneamente, a mesma Perspectiva lança Sábato Magaldi e as Heresias do Teatro, de Maria de Fátima da Silva Assunção (leia texto abaixo), que funciona quase como um complemento do primeiro volume de História do Teatro Brasileiro, que cobre desde o teatro jesuítico da colonização aos anos 1950 (o segundo volume vai dos herdeiros do teatro modernista aos contemporâneos). Magaldi analisa em seu livro a performance de atores como Jayme Costa (1897-1967), o "rei da Bronca" (atuante entre 1924 e 1964), e dramaturgos como Nelson Rodrigues (1912-1980), que revolucionou o teatro brasileiro com Vestido de Noiva (1943). Outro lançamento que complementa a História do Teatro Brasileiro chega pela Penguin Companhia das Letras: trata-se da Antologia do Teatro Brasileiro - Comédia, organizada por Alexandre Mate e Pedro M. Schwarcz, que reúne alguns dos textos mais populares de dramaturgos do século 19, entre eles Arthur Azevedo, Martins Pena e Qorpo Santo.

Na introdução da obra, o professor João Roberto Faria lembra que foi justamente no período romântico que o teatro brasileiro se constituiu como um sistema integrado por escritores e artistas, incentivados pela nova condição política do País após a declaração de sua independência. Temas até então ausentes das peças - a natureza da escravidão e a integração entre brancos e índios - tomaram os palcos após a hegemonia do teatro jesuítico de catequese e o predomínio dos textos do barroco espanhol e italiano na era colonial. Pelo descrédito na profissão de ator, a participação de negros e mulatos, já marginalizados, cresceu muito nas peças do repertório setecentista, que revelou pelo menos um comediógrafo de peso, Antônio José da Silva (1705-1739), o Judeu. Sucesso de público e crítica, ele só não foi visto com bons olhos pela Inquisição, que o degolou amarrado a um poste, atirando-o depois à fogueira. A Censura, como se vê, sempre perseguiu o teatro brasileiro, do autor de Guerras do Alecrim e da Manjerona (1737) a Plínio Marcos (1935-1999), passando, naturalmente, por Nelson Rodrigues.

Relatar episódios como esses não poderia ser tarefa para um só homem. Da obra coletiva que é História do Teatro Brasileiro participam especialistas como Vilma Arêas, Maria Thereza Vargas (no primeiro volume) e Clóvis Garcia (no segundo), entre outros. Para contar a história de antigas companhias dramáticas, da consolidação do nome de alguns astros na década de 1950, da revolução modernista e do teatro contemporâneo brasileiro, a dupla de organizadores teve de dar unidade ao conjunto de textos, evitando o caráter de antologia que caracteriza trabalhos como esse. Em tempos passados, qualquer história de teatro privilegiaria a dramaturgia, concedendo importância menor ao papel dos atores e encenadores. A atual vai em direção contrária. "Não coloco o texto em segundo plano, mas considero que a consumação do ato teatral se dá no palco, no aqui e agora, ideia que vem da moderna fenomenologia estética", justifica Guinsburg.

O teatro, diz o editor, não foi sua paixão inicial. Somente depois de assistir a Dybbuk, peça seminal do teatro judaico, escrita em 1914 pelo russo S. Ansky (1863-1920), é que Guinsburg acabou fisgado pela paixão etnográfica do dramaturgo. Ansky apresentou sua peça a Stanislavski e foi por ele aconselhado a verter o texto para o ídiche, que teve um papel fundamental no desenvolvimento do teatro em Israel. Guinsburg traduziu o texto para o português no fim dos anos 1950 e publicou-o com introdução do diretor italiano Ruggero Jacobbi (1920- 1981). "Ziembinski quis montar a peça, mas houve oposição no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC)", revela o editor, que vai publicar a história do teatro brasileiro escrita pelo diretor italiano, influência decisiva na formação de encenadores como Fernando Peixoto (1937-2012).

A Perspectiva publicou seu primeiro livro de teatro em 1969 (O Sentido e a Máscara, de Gerd A. Borheim). Desde então, já são 200 títulos em catálogo, o que a transforma na editora com mais livros publicados na área. Apaixonado pela vanguarda teatral russa, Guinsburg traduziu e publicou obras de Maiakovski e Stanislavski logo ao ser convidado para dar aulas de teatro na Escola de Comunicações e Artes da USP (nos anos 1970) e constatar que nossa bibliografia teatral era pobre, para dizer o mínimo. A cruzada do editor teve êxito. Cada vez mais outras editoras seguem o exemplo da Perspectiva, lançando obras sobre teatro. A Iluminuras, por exemplo, acaba de colocar nas livrarias o único livro organizado e publicado em vida pelo diretor de teatro russo Vsévolod Meyerhold (1874-1940), Do Teatro. A editora É Realizações lança esta semana, dentro da série Biblioteca Grotowski, Trabalho e Voz de Zygmunt Molik, que atuou sob as ordens do encenador polonês Jerzy Grotowski (1933-1999), também lembrado pela Perspectiva com a publicação de Trabalhar com Grotowski, de seu colaborador norte-americano Thomas Richards (leia texto sobre os dois livros na página ao lado).

Buscando a parceria de entidades comprometidas com o teatro no Brasil, como o Sesc, a editora de Guinsburg publicou outros livros fundamentais como História Mundial do Teatro, de Margot Berthold, e o Dicionário do Teatro Brasileiro, que teve 39 colaboradores. O crescimento no número de títulos é proporcional ao interesse da nova geração pela profissão de ator. "O status social de origem dos novos atores e diretores é bem diferente daquele da geração dos anos 1940, formada por amadores recrutados em outras áreas, ou na época de Alfredo Mesquita, quando operários, após o trabalho, ensaiavam peças à noite", conta Guinsburg. A trajetória do teatro operário e anarquista, aliás, é contada no primeiro volume de História do Teatro Brasileiro pela teórica e pesquisadora Maria Thereza Vargas, num dos mais surpreendentes capítulos da obra. Nele, a ensaísta relata que existiram só no Maranhão e Pará 67 agremiações dedicadas ao teatro social, entre 1897 e 1967, quando o cerco da ditadura colocou um ponto final no movimento.

"Os atores e diretores, hoje, são mais informados, não é como na época de Grande Otelo, que vinha do circo, ou nos tempos do teatro de revista", observa Guinsburg, atribuindo à formação dos atores o interesse por publicações na área. "Hoje, mais que os encenadores, são os atores formados na universidade que respondem pelo processo de renovação da cena teatral, embora existam diretores como Antonio Araujo, Cibele Forjaz ou William Pereira." Entre os dramaturgos contemporâneos, diz o editor, ainda está para surgir o autor de uma obra icônica como O Rei da Vela, do modernista Oswald de Andrade (1890- 1954). "No passado, a crítica teve um papel importante na evolução de nossa dramaturgia, mas seu espaço parece cada vez mais reduzido", lamenta Guinsburg.

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