O teatro de Wilson se expande para outros meios de expressão

Análise: Jefferson Del Rios

O Estado de S.Paulo

25 de março de 2012 | 03h12

Ninguém quis ir dormir enquanto aquele espetáculo longuíssimo seguia no Teatro Municipal de São Paulo na noite de 9 de abril de 1974. Estávamos fascinados - o diretor Antunes Filho era um deles. Levantávamos para o café, pensar, para trocar ideias, e demonstrar encantamento diante das quatro ou cinco horas de A Vida e Época de Dave Clark, criação de Robert (Bob) Wilson. Foi um momento de revelação no I Festival Internacional de Teatro, promovido por Ruth Escobar, e deixaria marcas.

Quatro anos mais tarde ao dar seu grande salto criativo com Macunaíma (1978), baseado em Mario de Andrade, Antunes usou elementos visuais e de movimento de corpo claramente inspirados no espetáculo do grupo norte-americano, uma noite iluminada no País ainda nas sombras da ditadura (que obrigou a mudança do nome Josef Stalin por certo e fantasioso Dave Clark). A encenação estava dividida em vários atos apresentados em dias diferentes.

A versão integral, com doze horas, começou às 19 horas do dia 13 de abril, um sábado, e terminou às 7 horas da manhã do dia 14. O teatro esteve lotado para ver aqueles movimentos lentos e misteriosos do elenco diante de um fundo cenográfico azul profundo. O enredo apenas sugerido trazia a superposição, em câmara lenta, de imagens, fragmentos de espetáculos anteriores de Wilson desde o final da década de 60. Impossível esquecer a figura enigmática da atriz Sheryl Sutton, uma negra esguia tendo uma ave empalhada na mão direita.

É este artista nascido no Texas, um homem alto, sólido aos 70 anos, que volta ao Brasil depois de já ter apresentado aqui outros dois espetáculos - e discutido sua estética em uma palestra do MASP - além daquele memorável A Vida e Época de Dave Clark, há 37 anos. Seu teatro onírico e vagaroso nasceu de uma necessidade pessoal. Wilson foi gago na infância e o processo de superação do problema o levou a se interessar por terapia com crianças surdas, autistas e adultos senis ou retardados.

Seu teatro não é, pois, o do domínio da palavra. Ao contrário, expande-se para outros meios de expressão como pintura, dança e música experimental (Phillip Glass, por exemplo). Um dos seus primeiros êxitos teve o significativo título der O Olhar do Surdo.

Mas não é ao mesmo tempo seu único caminho. Desde 1962, Wilson tem ligações com ópera quando, ainda estudante de pintura na Europa, assistia aos festivais de Wagner, em Bayreuth, na Alemanha, e o de Mozart, em Salzburg, na Áustria. Fato curioso levando-se em conta a prolixidade dos libretos operísticos.

Como trabalha continuamente em várias partes do mundo, nem sempre causa o impacto das obras iniciais. É inevitável na carreira do artista que circula entre a introspecção, a pesquisa e os apelos da celebridade. Quando esteve em São Paulo em 1991com Quando Despertamos Dentre os Mortos, de Ibsen, não houve algo realmente especial além da beleza formal sabida e da curiosidade despertada pela presença do ator Joel Grey brevemente celebrizado ao lado de Lisa Minnelli no filme Cabaret (1972).

Só que a solenidade do enredo, e o próprio Grey, dessa vez foram minimizados pelas dimensões do palco do Teatro Municipal. Em compensação, em Quartett, de Heiner Müller, no Sesc Pinheiros, em 2009, com a excepcional Isabelle Huppert à frente do elenco, Bob Wilson demonstrou ser ainda figura exponencial das artes cênicas, sobretudo como o poeta visual que abre espaço para o silencio reflexivo e o mistério. É animadora, portanto, a possibilidade de se assistir à sua concepção de Verdi baseada na violência de Shakespeare, no Teatro Municipal, além de outros espetáculos já programados e que serão apresentados no Sesc.

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