O tchu tcha tcha em 2013

Carlos Nunez, produtor de MCs e assistente social, fala sobre as inovações e os limites do funk paulistano

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h10

Um giro pelo estado contemporâneo do funk pode ser feito em discos recentes, como o Favela Trap do DJ Comrade, (soundcloud.com/xaoproductions) e recentemente a coletânea Funk Globo - The Sound of Neo Baile, do blog Funk Na Caixa.

No primeiro, o DJ Comrade faz uma leitura do gênero brasileiro através das batidas da estética trap do hip-hop americano (pense em Harlem Shake). No segundo, o blogueiro Renato Martins e o produtor Sean "Bumps" Casey, fundador da festa Club Popozuda, que toca funk em Londres, fizeram uma parceria com o selo inglês Mr. Bongo para lançar uma coletânea que retrata como a sonoridade do funk é adaptada em diferentes países.

Trata-se de uma vertente que é conhecida como neo baile, em que DJs de diferentes nichos de bass music adaptam o gênero brasileiro, como aconteceu com as produções de Diplo para M.I.A. na década passada.

O termo é amplo e abriga digressões voltadas ao house, como o remix de Chega Mais, do paulistano MC Gi, que Carlos Nunez faz, ou as batidas mais balançadas de Maga Bo, americano radicado no Rio, que produz bass music com sabor de funk desde o início dos anos 2000. Há também artistas vindos de cantos longínquos, como Ophex, da Lituânia, ou Chuck Upbeat, de Moscou. Deize Tigrona participa e a raiz africana fica por conta do suingue de Gato Preto de Moçambique. / R.N.

A evolução do baile funk em 2013 ocorre em mais de um front, do intercâmbio com DJs experimentais, à influência do hip-hop de viés "trap", ao diálogo como pop eletrônico em voga nas pistas americanas. Por um lado, perpetua-se uma conversa global entre produtores de música com ambições vanguardistas, embora uma pequena parcela disso ocorra na periferia. Por outro, a abrangência popular da nossa principal moeda de troca musical - pobre, amadora e dolorosamente crua como a realidade em que tem seu berço - ganha um verniz mais trabalhado, ecoando o trabalho de hitmakers americanos.

Esta segunda é uma questão - ou um rolê - vivenciado todos os dias pelo DJ Carlos Nunez, produtor em ascensão nos círculos de MCs da zona leste paulistana (veja no soundcloud.com/cnunez), que trabalha em um projeto musical do governo na Vila Curaçá e também trilha o lado mais underground do funk (escute sua faixa na coletânea de neobaile 'Funk Globo', comentada ao lado).

"O funk paulistano ficou por muito tempo preso à simplicidade por causa da preguiça e da falta de originalidade da maioria de produtores", conta o DJ, em conversa com o Estado, em um metrô a caminho de Itaquera. "Hoje em dia, a galera que me procura está atrás de mais elementos, de uma produção mais lapidada", completa. Carlos produz MCs como Maike, Thiaguinho e Dede, o mais famoso em seu portfólio, praticante de um funk sensual, menos pornográfico do que o de costume (vide Linda Menina, produzida por Carlos, ou o hit Bum Bum na Água, produzida pelo DJ Bruninho FZR). Como a de uma crescente leva de DJs nacionais - entre eles Alex MPC e Dennis, produtor de Naldo - sua proposta é colocar elementos de música eletrônica contemporânea no funk. No caso de Carlos, isso tem de ser feito sem descaracterizar o funk - uma proposta difícil sendo que se trata de um gênero atualmente baseado em um único sample de percussão vocal (o "tchu tcha tcha", para os íntimos).

Embora o funk visto por uma ótica de eletrônico não seja novidade desde que Naldo virou hit com batidas à la David Guetta, há ainda uma resistência em abraçar tendências internacionais. "Por outro lado, o pessoal da periferia ainda acha que colocar elementos eletrônicos é coisa de playboy, que elitiza o funk", conta Carlos, cujas batidas obedecem à ética simplista do gênero, e, além de melodias de sintetizadores, adicionam apenas elementos sutis, como um bumbo ou uma caixa de hip-hop. "Mas agora que o funk voltou ao mainstream e a coisa está mais séria, os MCs que me procuram querem esses detalhes a mais", completa.

Beatmaker freelancer após o expediente, Carlos trabalha durante o dia na Fábrica de Cultura da Vila Curaçá, instituição do governo de São Paulo que proporciona atividades culturais de graça para os moradores da periferia. A unidade da Vila Curaçá tem um estúdio montado para a gravação dos moradores. Não é preciso dizer que sucede uma fila de MCs - uns aspirantes, outros em início de carreira - na lista de gravações de Carlos, que divide as tarefas com outro produtor, Vini 707, e já trabalhou também com o paraense Jaloo, na Vila Curuçá.

"Todos querem ser MCs. São atraídos pela fama e pelo dinheiro do ofício", conta, lamentando o desinteresse pelo aspecto musical do ofício, e atribuindo isso à falta de informação e verba para equipamentos da juventude da periferia. Talvez a personalidade do fenômeno funk em sua versão tchu tcha tcha venha mesmo de sua proposta amadora, e esperar pela ascensão de uma música pop eletrônica nacional mais lapidada seja elitismo. Em resposta, Carlos aponta para as diferenças entre os EUA e o Brasil: "Aqui o funk divide espaço com o sertanejo, com o axé. Nos EUA há maior mercado para a música de gueto deles, que é o rap. A música lá cresce em massa e mais rapidamente", conta.

VÁRIOS ARTISTAS

Funk Globo - The Sound of Neo Baile

£ 8.99 no site www.mrbongo.com

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