O Tao de Mutarelli

Obra-prima Diomedes é reunida em álbum luxuoso, em uma edição revisada

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2012 | 03h09

"Trilogia" (de quatro álbuns) iniciada em março de 1997 e concluída em 1999, Diomedes agora ganha contornos definitivos. Uma das mais importantes obras dos quadrinhos brasileiros em todos os tempos, o trabalho de Lourenço Mutarelli acaba de sair em uma luxuosa edição de 432 páginas do selo Quadrinhos na Cia. (da Companhia das Letras), agora revisada e encorpada pelo autor.

Diomedes - A Trilogia do Acidente (R$ 59) o equivalente, no Brasil, a American Splendor, de Harvey Pekar. Nada de tanto fôlego e impacto foi feito até hoje nos gibis nacionais. Mas pouca gente tinha tido a chance, até pelas publicações esparsas dos quatro álbuns, de ler tudo de uma só vez. Os leitores ficarão embasbacados com o nível de acabamento, referências (de Sartre a Tintin, de John Cale a Screamin' Jay Hawkins, de Adão Iturrusgarai a Angeli), com a sofisticação do roteiro, o ritmo, a originalidade da obra.

Diomedes é um detetive particular gordo e sedentário, de hábitos alimentares nauseantes e inepto, além de sem glamour ("Patético" é a palavra-chave, definiu o autor), casado com Judite, uma clássica dona de casa de forno e fogão (que tem uma rotina não tão espartana quando o marido não está em casa). Um dia, entra em cena um sujeito muito rico com um trabalho insólito: encontrar um mágico desaparecido de sua infância, Enigmo.

A partir daí, a vida de Diomedes começa a entrar num ritmo vertiginoso. Artistas circenses em frangalhos, prostitutas, policiais corruptos, crueldade gratuita, chantagens, motéis baratos. Delírios lisérgicos e planos memorialísticos insondáveis. Há pistas de histórias que voltariam em romances do autor, como O Natimorto e O Cheiro do Ralo. Os personagens incidentais e as "locações" compõem uma crônica tridimensional do nosso tempo. Do poeta Glauco Mattoso à estação ferroviária do Carrão, do Bar do Douglas, no Tatuapé, ao Chiado, em Lisboa.

Lourenço Mutarelli ficou longo tempo longe dos quadrinhos. Em 2011, voltou ao métier com o álbum Quando Meu Pai se Encontrou com o E.T. Fazia um Dia Quente, pela Companhia das Letras. Voltou a espantar, dessa vez por sua concisão, plasticidade e o notável uso da cor (Diomedes é todo em preto e branco).

Diomedes é sua obra-prima. As histórias que compõem o álbum (O Rei do Ponto, o Dobro de Cinco, A Soma de Tudo) saíram originalmente pela Devir Editora nos anos 1990. Era uma ousadia incomparável de um autor de quadrinhos, especialmente na situação em que Mutarelli se encontrava. Ele lembra que, na época da publicação, disse à mulher, Lucimar. "Estou vivendo uma crise financeira... há 37 anos."

Mutarelli começou tarde. Aos 24 anos, como contou. "Comecei procurando as várias editoras que existiam na época, em 1988", lembra. "Todos faziam o mesmo discurso, que eu tinha um trabalho interessante mas que não se encaixava em nada do que eles faziam, não era humor, não era infantil, não era terror, não era 'sacanagem' e não era nada."

Hoje, qualquer um quer publicar Mutarelli, premiado autor de 5 romances, peças de teatro e roteiros cinematográficos. Assinou a arte do filme Nina, dirigido por Heitor Dhalia, e seu romance O Cheiro do Ralo foi adaptado para o cinema por Selton Mello.

Diomedes, policial aposentado, foi inspirado no próprio pai de Mutarelli, que também era policial. "Ele tinha muitos quadrinhos, principalmente os clássicos, como Hal Foster, Chester Gould, Alex Raymond e, entre esses, que gosto e respeito muito, encontrei uma história do Spirit de Will Eisner", recorda o desenhista. "Foi numa aventura do Spirit, a famosa história de Gerhard Shnobble, que percebi que era possível falar sobre qualquer assunto e, mais do que isso, sobre qualquer sentimento."

Quanto aos lugares reconhecíveis nos seus quadrinhos, Mutarelli disse uma vez. "Se vejo um lugar que se parece com um cenário por onde meus personagens percorreriam, vou ao lugar e o desenho." Não precisa ser nenhum lugar especial, nenhuma arquitetura ou visão automobilística específica. "Eu odeio a estética futurista ou contemporânea", afirma. "Por isso, geralmente desenho carros elegantes de bons e velhos tempos que alguém disse ter existido."

DIOMEDES - A TRILOGIA DO ACIDENTE Autor:

Lourenço

Mutarelli

Editora:

Quadrinhos

na Cia. (432 págs., R$ 59)

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