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O tango requer dois?

O nosso trânsito, por exemplo, é mais que um tango, é uma gigantesca quadrilha de São João

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 03h00

O ditado existe em inglês: “It takes two to tango”. O significado é amplo. Exalta a parceria positiva e também que uma briga necessita do envolvimento de duas pessoas, ao menos. Existe adágio brasileiro próximo: “Onde um não quer, dois não brigam”. 

Os estoicos concordavam. Marco Aurélio escreveu: “Hoje escapei das circunstâncias difíceis, ou melhor dizendo, rejeitei-as; pois elas não se encontravam fora de mim, mas em minhas próprias suposições” (Meditações 9,13).

A sabedoria dos ditados sempre encontra limites no real. A Rússia invadiu a Ucrânia. Kiev pode declinar do “tango”? Um adversário agressivo pode superar qualquer disposição pacifista de uma pessoa ou de um país. Diria que, na maioria das vezes, a dança exige a concordância de ambos. Nem sempre. 

Fora de situações-limite, a ideia é ótima. O trânsito brasileiro, por exemplo, é mais do que um tango, é gigantesca quadrilha de São João que reúne entusiastas do ódio e da insegurança. Uma estrangeira comentou que os brasileiros deveriam transferir muito da sua raiva para o volante. Eu achava que tínhamos o pior trânsito do mundo até conhecer o Cairo e Délhi. Bem, talvez não seja o tango mais caótico, todavia estamos no pódio. 

Em filas longas de dias quentes no supermercado, as notas da dança convidam todos com frequência. Basta um começar a reclamar, e a dança pode ser sentida no ar. Temos enorme impulso natural para a dança. 

As redes sociais são o epítome do bailado do ódio. Aqui vacilam os argumentos estoicos. Como eu quase nunca respondo aos odiosos de plantão, sinto que isso causa o dobro de vontade de parceria no ritmo portenho. Será o silêncio uma forma refinada de ódio?

Filósofos afirmam que toda raiva agressiva é filha da ignorância. Cristãos devem oferecer a outra face ao agressor, um passo além de Marco Aurélio. Ser dominado pela paixão pode ser, para alguns psicanalistas, uma forma de se deixar controlar. Consciência afasta alguns impulsos negativos. Talvez, todo dia antes de sair à rua, deveríamos ler um filósofo estoico, um pouco do Sermão da Montanha e um bom texto de psicanálise. 

Seríamos um país mais calmo, menos “dançante” no sentido negativo dado pelo ditado inicial? 

As notas, todavia, estão no ar, o ritmo é delicioso, a dança convida, e a raiva envolve. Ódio é uma forma de comunicação intensa; existe gente que não consegue abrir mão da sua carência. Insulte-me, agrida-me que, enfim, saberei que sou importante para você. O prazer humano sempre foi inalcançável pela simples lógica racional. Esperança? 

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