O tamanho da dor do mundo

O desencontro entre três personagens desiludidos é a marca de Inverno da Luz Vermelha

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

 

 

 

 

Em 1997, o dramaturgo americano Adam Rapp viajou com seu melhor amigo para Amsterdã, na Holanda, onde conheceram uma prostituta na região conhecida por Bairro da Luz Vermelha. Rapp buscava ajudar o colega, que sofria por um desentendimento amoroso. A mulher, no entanto, envolveu-se com os dois e modificou o relacionamento entre os amigos. A trama marcou também Rapp que, em 2005, escreveu e dirigiu a peça Inverno da Luz Vermelha, cuja montagem nacional estreia amanhã, no Teatro Faap, marcando a volta de Monique Gardenberg à direção teatral depois de três anos, atendendo ao convite dos produtores Beto Amaral e Pedro Igor Alcântara.

Como não poderia ser diferente, a concepção ganhou ares mais requintados - inicialmente desinteressada pelo texto, cuja primeira leitura revelou um certo exagero dos personagens, Monique logo descobriu o fio condutor que orientou sua concepção criativa. Assim, David (André Frateschi), decidido a ajudar na recuperação sentimental de Matheus (Rafael Primot), aproveita a viagem de férias que fazem à capital holandesa para contratar o serviço de Christine (Marjorie Estiano), prostituta francesa. O encontro ultrapassa o simples jogo sexual, pois uma relação de afetividades mal resolvida acaba se instaurando.

"Não consigo trabalhar com personagens totalmente desprezíveis, assim, depois de limitar um pouco a ação de cada um deles, acredito ter encontrado o tom certo", conta Monique, que faz aparas sutis mas necessárias. David, por exemplo, no original, é completamente execrável, da mesma forma que Matheus é homem por demais torturado em sua amargura. "Na nossa versão, isso não acontece, assim como foi eliminado um certo moralismo", observa Frateschi. Ele se refere especificamente à ação do segundo ato, quando, passado um ano, os personagens voltam a se encontrar, agora em São Paulo.

Nesse momento, Matheus revela sua total devoção por Christine, representada por um casaco que ela deixou no quarto, depois daquela noite. A moça, aliás, volta ao Brasil em busca de Davi - sim, ela não é francesa e se chama, na verdade, Ana. E, depois de descobrir que é portadora de um vírus letal, retorna ao País. O reencontro do trio é trágico e lembra o célebre poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade: Matheus ama Christine/Ana, que ama Davi, que não ama ninguém. Foi sobre esse triângulo que a encenadora lapidou as relações amorosas de forma direta. "Afinal, o drama é molhado enquanto a tragédia é seca", comenta.

"É um momento revelador da peça, pois cada personagem demonstra ter transformado fatos banais em coisas grandiosas, o que não traz satisfação nenhuma", conta Rafael Primot, detectando as filigranas no texto de Rapp que conquistaram diretora e elenco. "Rapp retrata a dor do mundo ao mostrar o tamanho do desencontro das pessoas", afirma Monique. "E o resultado dessa aposta errada é a solidão", sentencia Marjorie Estiano.

E, como Matheus é um escritor e prepara uma peça abordando exatamente a relação entre os três, surgiu aí a chave da concepção de Monique. "A metalinguagem, ou seja, uma encenação acontecendo dentro de outra sem que ninguém saiba ainda como será o final, inspirou todo o espetáculo", conta a diretora, que influenciou também o trabalho da cenógrafa Daniela Thomas. Assim, ao abrir a cortina, o público descobre um palco totalmente despido, com seus cabos de aço e a parede de tijolos ao fundo à mostra. E a área da encenação é delimitada por alguns elementos, como uma porta, um sofá, uma estante de livros, posicionados de forma a montar um quadrado.

"Com a iluminação de Maneco Quinderé, surge um certo toque de irrealidade, que ajuda a alimentar a dúvida da plateia", comenta Monique, que parte de uma história banal para fazer um fino comentário sobre a solidão.

PRESTAR ATENÇÃO

Na música. Habitual nos trabalhos de Monique Gardenberg, a trilha é de arrasar, com destaque para Tom Waits.

No solo. Ao cantar Creep, do Radiohead, na guitarra, David (André Frateschi) quase simula uma relação sexual com Christine (Marjorie Estiano).

No cenário. Inspirado no filme Dogville, de Lars von Trier, Daniela Thomas demarca o espaço apenas com alguns móveis.

Na semelhança. Christine terá o mesmo destino que a atriz Jean Seberg, citada na peça.

QUEM É

MONIQUE GARDENBERG

ENCENADORA

Organizou eventos (Free Jazz Festival, entre 1985-2001), dirigiu filmes (Benjamin, 2003) e peças (Os Sete Afluentes do Rio Ota, 2002).

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