O surreal está de volta

Se neste momento o movimento surrealista desperta um novo interesse e está representado simultaneamente nos principais centros culturais do mundo, talvez seja porque ele não faz outra coisa senão desfilar enigmas sem resposta. Que resposta temos hoje para o conflito de civilizações, o terrorismo, a violência, o crescimento do extremismo e do integrismo?Existe visão mais surrealista do que o desmoronamento das torres gêmeas em Nova York? Agora, em vez de chocar o público pelo seu "princípio de irrealidade", como ocorreu no começo do século 20, as imagens do surrealismo tranqüilizam-no talvez por sua brutal e aparente revelação do oculto.A renovada curiosidade pelas mostras de Nova York, Londres, Rio e sobretudo pela gigantesca e ambiciosa exposição A Revolução Surrealista, no Centro Pompidou (até o dia 24), visitada diariamente por milhares de pessoas em Paris, pode provar que o "princípio de causalidade" não tem mais lugar no nosso mundo e que, hoje, é a "estranheza" que se tornou real. Ou ainda que, se o surrealismo nasceu entre duas guerras, é possível que atualmente ele retome o seu lugar intermediário antes da terceira.Max Ernst morreu em 1976, Miró em 1983 e Masson em 1987. Há 30 anos, a pintura surrealista pertencia ao passado e o movimento sobrevivia pelo trabalho dos historiadores, em catálogos e retrospectivas. Se a importância de um Tanguy ou de um Magritte era indiscutível, sua atualidade não era tão certa assim.De abstração em abstração, de minimalismo em conceitualismo, de proibição em proibição, parecia então impossível admitir uma criação que nascesse do psicológico, do onírico ou do automatismo. Os tempos das "aparições", dos símbolos e dos hibridismos já tinha passado. O surrealismo não retornaria nunca mais...E, no entanto, não só ele retornou mais rápido do que se esperava, como agora está em toda parte. Além dos museus, sobretudo nos próprios ateliês. A história deste retorno começou nos anos 80 com a volta à pintura, quando me lembro ter escrito que uma exposição como a de Yves Tanguy no Centro Pompidou (em 1982) era uma exposição revigorada - adquiria um novo interesse não apenas para os que saíam das rígidas experiências da década de 70, como principalmente para as novas gerações.Pouco a pouco essas práticas tinham perdido sua autoridade e, simetricamente, o subjetivo e o biográfico voltavam a interessar. Com eles, reapareceram a complexidade das figuras, a mistura dos gêneros e a improvisação sem regras. Portanto, direta ou indiretamente, o surrealismo retornou à carga.Terrores - Tanto a França quanto os Estados Unidos descobriram, então, uma artista comum aos dois países: Louise Bourgeois. Nascida em 1911, suas instalações e desenhos fundam-se em terrores infantis, provocações pornográficas, meandros do inconsciente.Bourgeois, todavia, pela sua idade, foi a única (e a última) artista contemporânea intermediária entre o surrealismo histórico e o contemporâneo. Depois, chegaram muitos outros: Jean-Michel Basquiat, Julian Schnabel, Anette Messager, Boltansky, Alain Fleischer, Orlan, Françoise Vergier, Dietman, Garouste, etc., etc. Todos eles com a convicção de que a criação artística é a expressão de uma subjetividade singular que não aceita mais os limites de um sistema teórico e de que a manipulação e a transformação de objetos e imagens são as formas maiores desta expressão. Aqui estão as duas lições do surrealismo: de um lado a liberdade absoluta do criador e de outro, a exploração e a reutilização das coisas.Aventura - A exposição no Beaubourg começa já no corredor que leva ao museu, com a projeção simultânea em vários monitores de televisão do filme L´Age d´Or, de 1930, de Luis Buñuel.Esta é a entrada triunfante para a grande aventura animada por André Breton. E que, segundo o curador Werner Spies, um especialista em Max Ernst, é pontuada por Ernst do começo ao fim. Distorção histórica e curatorial imperdoável, não houvesse também ali algumas jóias raras como a parede da qual Breton fez um espetacular "gabinete de curiosidades".Mas é Giorgio de Chirico, felizmente, que abre o percurso. Trata-se de reabilitar a pintura surrealista agrupando o melhor do seu período heróico e os grandes momentos de invenção, falando apenas da revolução pictórica. Nem que, para isso, seja necessário negligenciar a fotografia e evacuar toda a documentação, toda a literatura e poesia, todo traço de engajamento político do movimento. Outro erro curatorial imperdoável.Equívoco - Também as datas e as analogias de linguagem, que cotejam Tanguy e Dali por exemplo, são de um equívoco sem par. Em 1919, a efervescência dadaísta é vista aqui como "período de incubação" do surrealismo. Ocorre que 1919 é igualmente o ano em que Breton e Soupault concebem os campos magnéticos, primeiras aplicações da escrita automática, que mudam o curso do surrealismo. Entre outras ambigüidades, a exposição termina com a dispersão do grupo surrealista durante a Ocupação, amputando o surrealismo de seu desenvolvimento mundial e da sua agitação política. Como se fosse uma "outra história" que começasse.Na apresentação, Werner Spies afirma ainda que o "encontro dos surrealistas com a paisagem americana e a cultura indígena teve repercussão sobre o seu pensamento e o seu trabalho". Certo, no caso de Max Ernst. Mas... e os outros? Novamente Max Ernst que, convenhamos, não é dos artistas mais extraordinários do surrealismo, se impõe para o curador como parâmetro de todo o movimento!Exagero - Restam, sem dúvida, a grande qualidade das 400 obras reunidas e a sua capacidade em provar a existência real de uma vanguarda surrealista. Ali estão as melhores obras de Miró, Masson, Picasso, Tanguy, Bellmer, Cornell e mesmo de Dali, cujas obras, como Max Ernst, também sofrem de um exagero quantitativo. A vantagem é que a exposição evacua os surrealistas de quintal - os narrativos e os ilustradores - e retém apenas os reais inventores, aqueles que liberaram a arte dos seus limites estéticos.Werner Spies conseguiu todos os empréstimos que queria do MoMA de Nova York, do Museu de Dusseldorf, do Reina Sofia de Madri e de colecionadores. E, finalmente, apesar dos seus equívocos, acabou revelando uma tendência indisciplinada, revoltada, violenta e agressiva por meio de artistas que permitiram ao olho "existir no estado selvagem". Um olho do qual talvez necessitemos mais do que nunca para compreender o mundo atual.

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