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O surreal anticlímax de se divorciar por videoconferência

A poeta e ensaísta Tina Clark detalha a profusão de sentimentos que marca a separação em tempo de pandemia

Tina Clark, The Washington Post

23 de junho de 2020 | 11h05

Demorou seis minutos para me divorciar na minha mesa da sala de jantar. Meu novo ex-marido estava sentado à minha frente, segurando minha mão esquerda. Nosso buldogue francês creme farejava migalhas sob os pés. Seis minutos para terminar um casamento de oito anos. Puf. Feito. Tudo conduzido através de um software de videoconferência chamado “Cisco Jabber para o terceiro circuito do Tennessee”.

Tive que me vestir formalmente, embora a audiência fosse online. Eu usava o terno que havia comprado meses atrás para o divórcio e que havia permanecido no armário enquanto a pandemia continuava adiando nossa data original do tribunal. O traje era simples, feito de linho branco. Eu queria me sentir formidável, mesmo que estivesse prestes a berrar. Antes de completar a conexão, arrumei meu cabelo e passei meu batom exclusivo: um azul-avermelhado brilhante e fosco.

Minha advogada me enviou as instruções para baixar o software. Eu deveria estar pronta 10 minutos antes do nosso horário de chamada, às 9 da manhã, e ela me enviaria um e-mail quando o funcionário do condado ligaria para nos permitir “entrar” na sala de audiência virtual. Nós éramos os primeiros a chegar. Meu divórcio virtual parecia um sonho – passadas várias semanas, às vezes ainda me pergunto se isso realmente aconteceu. Tanto parece um sonho que você ainda tenta se agarrar em algo que se dissipa bem na sua frente.

A videoconferência tem o mesmo efeito, especialmente ao induzir a uma sensação exaustiva de ausência de lugar. Eu queria registrar bem o tribunal, um cenário de madeira de mogno escuro. Eu queria as formalidades, as armadilhas. Em vez disso, eu tinha a voz da minha advogada pairando nos alto-falantes – a câmera dela não estava funcionando – e a visão do juiz em sua túnica preta no banco.

Fiz um juramento e respondi a uma série de perguntas que havia analisado antes, uma ladainha de “sim-sim-sim-sim”. É difícil não se olhar nesses ambientes digitais, e fiquei olhando para o canto da tela que mostrava a visão da minha webcam. Quantas pessoas recebem esse tipo de espelho durante o processo de divórcio, mostrando seus rostos em tempo real, tornando-as testemunhas e participantes?

Seis minutos depois, o juiz estalou o martelo. Eu tinha meu nome de solteira de volta: Knight. Ele brincou dizendo que eu deveria me gabar para meus amigos de que me divorciei na TV. Fiquei agradecida pelo momento de leviandade.

Meu divórcio foi amigável, mas ainda difícil. Ele e eu éramos crianças da igreja milenares, cheias de vergonha por nossos corpos trancados. Estávamos quase felizes, até que não podíamos mais fingir. Estávamos cansados de carregar nossas crucifixos pessoais ao redor do pescoço e chamar isso de casamento.

Mas o processo de separação oficial foi um longo limbo. Tomamos nossa decisão no verão de 2019, depois tivemos que esperar seis meses para obter o status de residência no Tennessee, para onde nos mudamos recentemente. Quando fevereiro chegou, iniciamos o período de espera de 60 dias. A data de nosso julgamento foi adiada e adiada indefinidamente. Durante semanas, eu não tinha ideia de quando isso realmente aconteceria; houve tanta demora. Quando finalmente aconteceu, em 13 de maio, aconteceu tão rapidamente que eu mal a processei.

O divórcio pode parecer desconcertante, mesmo sem os atrasos provocados pelo novo coronavírus. Afinal, o que significa oficialmente “acabar” com uma união que já parecia acabada, anos antes de realmente admitirmos a nós mesmos e depois um ao outro e, agora, a um juiz?

A verdade é que não me senti tão diferente depois que cruzei a linha de chegada do divórcio. Eu troquei de emoção. Passei de dizer “Estou em processo de divórcio” ou “Estamos em processo de divórcio” para: “Sou divorciada. Sou solteira. Acabou”. E eu tinha meu nome de solteira de volta – títulos alterados, de volta ao meu novo-antigo eu. Mas ainda sentia que tinha perdido alguma coisa.

Talvez eu desejasse a fisicalidade do tribunal porque queria algo que emprestasse gravidade aos procedimentos. Em vez disso, meu divórcio online parecia que eu estava assistindo a um simulacro de mim mesma em um clipe do YouTube – uma sopa estranha de emoções e imagens, de presença e ausência.

A covid-19 mudou drasticamente o costume de finalização de muitos momentos – comprimindo os procedimentos, dispersando os participantes. Isso nos roubou a pompa e a circunstância que dão forma psicológica às transições da vida: formaturas no final da escola, funerais no final da vida.

Depois que fechei meu computador com um pequeno clique, meu ex-marido novinho em folha me disse que estava feliz por ter se casado comigo e que não se arrependia de nada. Eu concordei e apertei sua mão; o contato parecia uma novidade em um período de tanta fome de toque. Nos abraçamos. Lutamos. Nós fizemos as pazes. Pedimos desculpas e passeamos com o cachorro. Quase parecia outro dia. Mas agora nós pertencemos apenas a nós mesmos.

Amigos telefonaram e mandaram mensagens, dizendo “parabéns”. Mais tarde, naquele dia, fiz uma caminhada socialmente distante com um amigo que também estava se divorciando e conversamos sobre a canção Failing and Flying, de Jack Gilbert. O poema compara o final de um casamento com a queda de Ícaro e reformula o evento como um triunfo, em vez de um fracasso: “Mas qualquer coisa que valha a pena fazer vale a pena fazer mal”.

Comprei flores para dar mais realidade à ocasião, pêssegos muito caros, peônias cor de rosa e brancas que recentemente trocaram a fisionomia de botões de punhos cerrados para flores sedosas e deliciosas de renda floral. Todas as manhãs desde o divórcio, eu olhava as flores fofas e sorria enquanto fazia meu café. Só agora, infelizmente, começaram a cair as pétalas que, soltas, se parecem com pancadas suaves na minha mesa. Pesquisei no Google quanto tempo as peônias florescem: sete a 10 dias. Tão breve em sua beleza e delicada floração.

A pandemia estendeu os dias como caramelo em uma máquina de puxar, espesso e cíclico. O presente parece uma partida de raquetebol em câmera lenta, os jogadores ricocheteando a bola para frente e para trás com ecos ecoando e chiados irritantes de tênis. Ondas de dor me atingiram em momentos aleatórios – como quando estou procurando um pacote de abacaxi em fatias na Publix, usando luvas pretas que minha mãe me enviou com uma nota que dizia: “Permaneça segura. Você é amada. Você é sábia”.

Ondas de gratidão me dominam também. Os procedimentos oficiais do tribunal não me tiraram do meu estado de transição, e talvez eles nunca tivessem esse poder em primeiro lugar. Eu alterno entre tristeza e gratidão. Paulada. Paulada. E florescimento, na repetição.

Ainda enfrento o difícil dom da solidão. Continuo repetindo e esfregando linhas de Rilke, como contas de rosário no meu cérebro: “Adoro as horas escuras do meu ser... Então, sei que há espaço em mim / por uma segunda vida imensa e atemporal”. De volta ao meu nome de solteira em poucos minutos. Às vezes, ainda há uma noiva aterrorizada dentro de mim, com medo de andar no próximo corredor da minha vida. / TRADUÇÃO UBIRATAN BRASIL

 

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