O superbacon

Somos a rara geração que viveu a transição de um milênio. Que sorte...

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 03h00

Somos a rara geração que viveu a transição de um milênio. Que sorte... Você lembra onde e com quem passou o réveillon do ano 2000? Lembra da empolgação com a chegada do novo milênio? Que festa... Lembra que passou a infância e juventude fazendo contas de quantos anos teria? Que ressaca...

Quer a notícia boa ou a ruim? Democracias entram em crise, regimes de direita ascendem com discurso de ódio e inspiração fascista, as florestas estão em chamas. EUA voltam a tensionar as relações como na Guerra Fria. Só que, ao em vez da ameaça de mísseis, o comércio – até o eletrônico – entra na mira.

Antes da virada, Escobar tombara morto, países legalizaram a maconha, até para uso recreativo, a Guerra das Drogas assinava o armistício, o Muro de Berlim era derrubado. Mandela saíra da cadeia e se tornara presidente, decretando o fim do apartheid. A partir de 1974, 140 países se democratizaram. Chegou-se a anunciar ‘O Fim da História’. 

A internet prometia mil maravilhas: democratizar a informação, arte e consumo, aproximar as pessoas. As tiragens dos grandes jornais brasileiros batiam um milhão nos fins de semana. Amazon começou vendendo livros. 

Via Orkut, reencontrávamos amigos da escola e primos distantes. Em comunidades, dividíamos informações sobre um gosto comum. O termo “bolha” ainda não entrara no dicionário. The Facebook ingenuamente foi criado para eleger a mais aluna mais bonita de Harvard. Coisa de college guys. Yahoo, para ajudar as buscas de alunos de Stanford. Só o mundo acadêmico tinha acesso à internet.

Veio o WWW. Que nome lindo... Word Wide Web: uma rede mundial conectaria todos os computadores. Deu no Google, um espetacular e inteligente site de buscas. Virou até expressão: “Dá um Google”; “Guga aí”.

Começamos bem. Um presidente negro fora eleito nos EUA. A Europa se unia numa única moeda, num continente sem fronteiras, depois de milênios de guerras, terror e rivalidade, abria possibilidade de trabalho e estudo. Mulheres chegavam ao poder. Paralelamente, Al-Qaeda, EI, Talibã, bots.

O Tech Trend Report 2020 lembra que a entrada no século anterior também prometia, dada as inovações da segunda onda da Revolução Industrial: eletricidade, lâmpada, telefone, geladeira, moviola, cinema, carro, avião, televisão, foguete (conquista espacial). Mas deu em guerras mundiais, Lei Seca, Al Capone, nazi-fascismo, campos de concentração e gulags. 

O que vem por aí? 

Para os otimistas: sistemas de inteligência artificial (IA) treinados em horas em vez de semanas, disponibilidade generalizada de fundos negociados por algoritmos, civilização humana fora do planeta, animais submetidos à bioengenharia, proteínas à base de plantas e fazendas internas movidas a robôs, carros, caminhões, navios e caças autônomos, computação quantum e exascale (sistemas de computação capazes de calcular pelo menos 10¹⁸ operações de ponto flutuante por segundo), redes 5G funcionais. Que maravilha...

Para os pessimistas: desigualdade social, conexões desiguais, fraudes e suspeitas em eleições, escrutínio intensificado de executivos-chefes e conselhos, extremos e frequentes eventos climáticos, proliferação de superbactérias e novas epidemias, ascensão de movimentos políticos extremos e teorias conspiratórias, relações comerciais instáveis, tensões entre potências (EUA, Europa, China e Rússia), conflito contínuo entre novas tecnologias e leis antigas, como censura, quebra de privacidade, suicídio e depressão em adolescentes, pós-verdade, síndrome de FOMO (medo de estar por fora), manipulação e negociatas de dados (todos têm scores agora).

China redesenhou a ordem mundial, IA ajuda empresas e governos. 

O que já vigora: alimentos sintéticos, como hambúrguer sem carne, audio augmented reality (AAR), óculos que falam diretamente ao cérebro, o fim do esquecimento (tudo estará nas nuvens), realidade virtual, hologramas, Wi-Fi, reconhecimento genético, neurociência, eSports, carros elétricos, voadores, drones, companhias aéreas e delivery com drones, voos supersônicos, casas automatizadas, dinheiro eletrônico, blockchain, câmeras inteligentes, fim do controles remotos e fios, inclusão financeira, sem taxas bancárias.

Defesa do meio ambiente promete avanços: tecnologia verde, baterias melhores, energia eólica e solar, recarregamento sem cabo, conversão de CO2 em material de construção, fazendas verticais, bancos de DNA, anéis e braceletes inteligentes, prédios e cidades inteligentes, lixo reciclado e plástico biodegradável.

Avanços espaciais: robôs cognitivos, WEB 3.0, internet do espaço, foguetes reutilizáveis, telescópios maiores, sondas em outros planetas e meteoros, turismo espacial, sistemas de propulsão sem combustível.

Têm coisas assustadoras vindo aí. Em 2019, o primeiro gato clonado da China “nasceu”. Sinogene, empresa de Pequim, “fez” um gato chamado Garlic para um cliente. Clonado. Onde um surto de peste suína matou um quarto de suínos, cuja carne é a mais consumida do globo. 

O cineasta Bong Joon-ho (Parasita) já tinha mostrado no filme Okja o efeito devastador de se criar big pigs. Agora, existem dezenas de experimentos e projetos de pesquisa com genes resistentes a doenças de supersuínos destinados ao consumo. Se isso é bom ou ruim? Pra quem gosta de bacon...

*É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO NOVO’

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