O SUINGUE DE RAVEL

Tugan Sokhiev e Bertrand Chamayou em concerto luminoso

O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2012 | 07h51

Direto ao ponto: o russo Tugan Sokhiev, de 35 anos, quatro a mais do que Gustavo Dudamel, pode bem ser qualificado como a versão europeia do menino de ouro venezuelano. É tão seguro quanto Dudamel, exibe o mesmo fogo interior na condução da orquestra e é esplendidamente musical. Além disso, parece mais sólido na concepção das obras que rege. O pianista Bertrand Chamayou, de 31 anos, nascido em Toulouse e solista do concerto de anteontem com a orquestra de sua cidade natal na Sala São Paulo, também é músico de exceção. Sua performance no concerto em sol de Ravel, especialidade de Martha Argerich, foi estupenda. Touché preciso, sentido de frase emocionante e articulação arisca.

Impressionou sua integração com a orquestra, algo complexo nesta obra que precisa funcionar como um reloginho suíço de mil e uma diminutas engrenagens que geram um suingue irresistível. Suingue sim, porque Ravel estava enamorado do jazz quando o escreveu. Amigo francês preferencial de Gershwin, conheceu-o em 1923, em Paris; voltaram a se ver quando Ravel fez uma turnê anos depois pelos EUA. Como um Zelig genial, emulou Gershwin, ultrapassando-o em refinamento de escrita - criou praticamente uma obra-prima da música norte-americana em plena Paris de 1930.

Concerto luminoso, numa viagem de um século pela melhor música francesa. As três obras respondem à questão: como compor algo novo? Quando pensou na Sinfonia Fantástica, em 1830, em pleno frenesi amoroso pela atriz irlandesa Harriet Smithson a quem dedicou a obra, Berlioz escreveu numa carta: "Preparo uma composição musical de um gênero novo por meio da qual vou impressionar fortemente minha plateia." Cinco movimentos nos quais a ideia fixa passeia obsessiva. E uma orquestração de embasbacar. A Fantástica pode ser lida como música de programa, que "narra" este caso de amor, mas também como música pura. Foi o que fez Tugan Sokhiev, à frente de uma orquestra regional francesa de surpreendente qualidade.

Debussy já chegou à cena musical parisiense anunciando publicamente: "Não disponho de precedentes aos quais me remeter e me vejo obrigado a criar formas novas." Prélude à L'Après-midi d'Un Faune oferece pouco mais de 10 minutos de pura magia sonora, desde o início hipnotizante da flauta solo. Sokhiev já mostrou as armas numa leitura levíssima, transparente de uma música que caminha se deixando levar pelo puro prazer sonoro.

"Há mais substância em L'Après-midi d'Un Faune do que na maravilhosamente imensa Nona Sinfonia de Beethoven", disse Ravel. E completou: "Os compositores franceses atuais trabalham com telas pequenas, mas cada pincelada é vital." Tugan Sokhiev, Bertrand Chamayou e a Orquestra do Capitólio de Toulouse conseguiram mostrar, em um só concerto, o charme refinado (e "vital", como queria Ravel) da música francesa.

Crítica: João Marcos Coelho

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