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O suicídio da América

Só nos resta uma ridícula esperança: “Ahhh... vai ver ele não é tão mau assim... talvez ele seja legal... bonzinho...”.

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2016 | 03h00

Mas, o que aconteceu é gravíssimo, é a prova de uma nova era terrível não apenas na América, mas no mundo. A democracia liberal que floresceu com o fim da Guerra Fria, com a queda da União Soviética, vai acabar. Será? Ninguém sabe, mas é provável, com a vitória desse palhaço da TV que a democracia (!) transformou no homem mais poderoso da Terra.

É inacreditável, mas aconteceu. Os avanços políticos e culturais da América serão jogados 50 anos para trás. Foi a vitória da ‘lunatic fringe’ – os loucos que espreitavam das margens da opinião pública. O Congresso e o Judiciário estarão em suas mãos, as 40 mil ogivas estarão em suas mãos, o mais poderoso exército do mundo em suas mãos pequenas, os códigos nucleares estarão sob aquele horrendo dedinho que ele ostentou o ano todo. Agora, teremos de ver a cara desse rato por 4 anos, a menos que ele morra, pois nem impeachment será possível. Os democratas fizeram o possível para defender o governo Obama, o melhor das últimas décadas nos EUA, mas isso não comove as massas que ainda sofrem com o desemprego que o Bush deixou como a herança maldita que o Obama conseguiu consertar em grande parte. Não reconhecem isso, pois são estúpidas, desinformadas, que formam um país subterrâneo que agora irrompeu, como um esgoto. Vai explicar a essa gente o quebra-cabeças do mundo atual, nesta fase delicadíssima de guerras localizadas e de multidões-bomba. Sua vitória estava escrita na insatisfação mundial com a democracia globalizada. O irracionalismo surge como uma forma rápida de resolver tensões e crises. Chega de ‘razão’, chega de ‘sensatez’. Trump é um resultado.

No mundo todo, surgiram as caras horrendas que, por si só, já denotam a trágica mudança. Vejam a cara de porco do novo presidente das Filipinas, o Duterte, que manda a população matar drogados e viados; vejam o Putin, maldoso psicopata, o homem mau de filme de James Bond, que agora os países do Leste Europeu começam a admirar; vejam a saída da Inglaterra da União Europeia, vejam o pré-ditador Erdogan da Turquia, vejam o outro porquinho do mal da Coreia do Norte, um pesadelo stalinista cômico, vejam o pescoço de girafa maldita do Assad matando o próprio povo, vejam a alegria da perua de extrema-direita Marine Le Pen, vejam o neonazismo na Alemanha e Áustria se arreganhando, vejam o presidente Orbán da Hungria, vejam o que restou da democracia (rs, rs) da Primavera Árabe, vejam a popularidade do Hofer da Áustria, vejam a popularidade até da direita na Dinamarca, até do partido popular na Suíça. Todos esses movimentos eram subestimados pela fé na liberdade, sustentada pelo oásis da sagrada democracia americana.

A tragédia da vitória de Trump não foi um raio em céu azul. Como era tudo inimaginável, quase um filme de terror, os democratas se despreocuparam, a mídia ficou ingênua e ninguém viu que, na sociedade do espetáculo, a longa exposição na TV podia eleger o elemento. Trump ficou um ano no ar. Virou um show. Virou um hábito. Não importa o conteúdo das plataformas; só valeram as promessas impossíveis e o precioso cultivo da paranoia. Creio mesmo que eles gostam do mais escroto e ridículo, como se a grossura fosse uma espécie de coragem.

Convenhamos que como show, o Trump era mais fascinante do que a sorridente figura sensata de Hillary. E a América cometeu um suicídio. É a rebelião dos imbecis...

Eu já morei na Flórida e conheço bem essa estupidez. É diferente da estupidez brasileira, pois não é fruto de analfabetismo ou de cultura zero. Lá, a boçalidade tem mais chão, é mais sólida e forma uma rede ideológica que prospera na classe média do país todo. Lá, a boçalidade tem fundamentos. São monoglotas que nada sabem do mundo exterior. Se consideram uma nação excepcional, que tem de repelir diferenças – o que mais odeiam: os negros, os gays, os latinos, os muçulmanos têm de ser banidos.

E, com o mundo cada vez mais intrincado, os estúpidos tendem para o isolacionismo mental, para certezas totalitárias, com ódio da política. Assim, o oásis americano virou miragem. O sustentáculo da liberdade virou o chefe da direita em ascensão, o país que inventou a democracia moderna conhece agora o gosto da banana de repúblicas latinas.

Isso nos obriga a pensar na democracia liberal e suas fragilidades, começando pelas conhecidas previsões de Alexis de Tocqueville, em 1831, de que o perigo era a ‘ditadura da maioria’, que seria dominada por uma ratazana como Trump. Rolou.

É estranho que um sujeito eleito na América possa ameaçar o mundo todo. Deveriam haver filtros (quais?) que protegessem o país de uma calamidade como essa.

Depois de um ano de inferno eleitoral, vemos também que a democracia americana tem um método de votação que denota uma desconfiança básica no voto universal. Em casos extremos como esse, a democracia virou uma ‘capa’ para legitimar a vitória desse crápula. Tudo desaguou no arcaico Colégio Eleitoral, onde Hillary perdeu, mesmo tendo a maioria dos votos populares. Isso já aconteceu 4 vezes na História, desde John Adams até Al Gore, derrotado pelo Bush, o pré-Trump no ano 2000. A ideia de definir a presidência por meio de um corpo de delegados surgiu no século 18 e é atribuída aos chamados “pais fundadores” dos EUA. Naquela remota época, realizar uma campanha eleitoral popular e universal era quase impossível devido ao tamanho do país e às dificuldades de comunicação. Os Estados ficaram temerosos por seus direitos e o voto popular era temido por sua imprevisibilidade. Hoje, muita gente já discute a eliminação desse método excludente e indireto. Mas, como é uma emenda constitucional, não passa nem por um cacete nesse Congresso dominado pelos republicanos. Espero que cresça o movimento, na outra metade do povo, de repúdio a essa eleição, de modo a haver algum limite à estupidez criminosa desses KKKs disfarçados.

É isso: esperança... Afinal, a vida continua... É, mas que vida?

 

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