''O sucesso foi surpreendente''

Julie Andrews relembra o temor que teve antes de aceitar o papel que transformou sua carreira

Ubiratan Brasil,

01 de novembro de 2010 | 00h43

A inglesa Julie Andrews vive há muitos anos nos Estados Unidos, ao lado do marido, o cineasta Blake Edwards. Mesmo assim, seu tom de voz não esconde a origem britânica: é ritmado e traz a inconfundível ondulação inglesa. Aos 75 anos, Dame Julie Andrews continua em ação, tanto no cinema (Shrek, Encantada) como na literatura, área em que se tornou uma respeitável autora de livros infanto-juvenis.

Curiosamente, ela confessa que não esperava pelo tamanho sucesso de A Noviça Rebelde, além de temer que o papel da freirinha Maria pudesse prejudicar sua carreira. É o que Julie conta na seguinte entrevista.

Hoje é fácil classificar o filme como clássico, mas, na época, você tinha noção de que seria um tremendo sucesso?

Não. Sabíamos que o roteiro era bom, o elenco bem entrosado, as músicas maravilhosas, mas ninguém poderia arriscar tamanho sucesso. Foi a feliz combinação desses elementos que elevaram o filme a um patamar especial. É o caso, por exemplo, do papel do barão vivido por Christopher Plummer - em meio a uma história um tanto açucarada, aquele homem enérgico e militar equilibra a mistura com um tom mais avinagrado.

Que lembranças você ainda guarda da filmagem da maravilhosa cena de abertura, nas montanhas?

Bem, foi um tanto difícil (risos). O helicóptero com a câmera vinha de um lado e eu, de outro. Encontrávamos no meio do caminho, quando eu dava a virada de corpo. Essa era a tomada, mas o vento provocado pelo aparelho me jogava na grama. Assim, repetimos a cena ao menos 12 vezes até acertarmos a medida, o que me deixou muito enfurecida. O consolo é que o resultado é, de fato, uma das melhores aberturas de um filme na história.

Quando foi convidada para o papel, dizia-se que você estava determinada a não ficar associada a musicais como aquele. O que a fez, então, a aceitar?

Na verdade, eu jamais vacilei em agarrar o papel de Maria. Seria uma loucura recusar. Meu receio era apenas de me repetir, pois eu acabara de filmar Mary Poppins (que lhe valeu um Oscar), no qual tinha um papel muito parecido, até no figurino.

Ninguém duvida também de que as canções de Rodgers e Hammerstein tornaram-se clássicas, mas, para o público atual, você acredita na necessidade de divulgá-las?

Infelizmente, sim. Tenho um exemplo em minha casa: meus netos adoram o filme mas, quando falo sobre os autores das canções e seu trabalho, eles me olham espantados e perguntam: "Quem?" É imprescindível manter viva sua obra, não apenas pela riqueza melódica e das letras mas principalmente pela enorme transformação provocada por eles nos musicais - observe que, ao término de cada canção, a trama já tomou novo rumo, os personagens são outros.

E qual seria sua canção favorita?

Curiosamente, não é nenhuma das mais conhecidas. Acho que você vai se surpreender: é Edelweiss. Especialmente quando cantada pela segunda vez pelo barão, quando ele se emociona por ser obrigado a deixar sua amada Áustria. É tocante.

Além de atriz, você também escreve para jovens, com mais de 30 livros publicados.

Sim, é uma das minhas principais ocupações atualmente. E, novamente, meus netos são meus guias, pois me baseio muito em seus gostos e opiniões. Se há alguma característica comum a todos os livros é minha intenção de combater uma leitura passiva, ou seja, gosto de instigar o leitor a pensar, a buscar o significado de uma palavra no dicionário ou mesmo de sentir que aumentou um tiquinho seu conhecimento. Espero que o jovem, terminada a leitura, não seja o mesmo de quando começou.

BASTIDORES

William Wyler, diretor de Ben Hur, foi contratado para dirigir o filme, mas diferenças na concepção fizeram com que ele saísse.

Rumores apontavam que Doris Day e Bing Crosby fariam o casal central.

A verdadeira Maria von Trapp visitou o set de filmagens em Salzburg e apareceu como extra em uma das cenas.

Como o elenco infantil estava em fase de crescimento, dentes falsos foram produzidos para substituir eventuais trocas de dentição.

A atriz Charmian Carr, que interpreta Liesl, a filha mais velha, sofreu entorse no tornozelo enquanto dançava o número Sixteen Going on Seventeen.

VERDADEIRA MARIA GRAVOU UMA CENA

A saga dos Von Trapp teve início na Áustria, em 1920, quando Maria Kutschera foi trabalhar como governanta de sete crianças na casa do viúvo barão George Von Trapp. Os dois acabaram apaixonando-se, casaram-se e tiveram mais três filhos (na foto, uma delas, Maria).

Em 1938, quando Hitler tomou a Áustria, a família resolveu fugir para América e fazer da música o seu ganha-pão. Após uma longa turnê, consagrada com um show em Nova York no Town Hall, estabeleceram-se em Stowe, pequena cidade do Estado norte-americano de Vermont. Em uma propriedade de 264 hectares, passaram a promover concertos e receber hóspedes. Maria morreu em 1987 e a nova casa da família - a antiga pegou fogo em 1980 - transformou-se em hotel e restaurante, o Trapp Family Lodge.

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