O subúrbio que deu certo

Entrevista com João Emanuel Carneiro, autor de telenovelas, roteirista e diretor de cinema

O Estado de S.Paulo

22 de março de 2012 | 03h11

Autor garante que Divino, cenário de Avenida Brasil, reflete a periferia atual, mais rica, pulsante, moderna

Nascido e criado na zona sul do Rio, João Emanuel Carneiro, que estreia Avenida Brasil, sua nova novela das 9 na segunda-feira, escreverá sobre a periferia do Rio, mas nada tem de suburbano. Morando há três meses no Chopin, edifício famoso por seus moradores ricos, João Emanuel marcou um papo com a reportagem do Estado no Copacabana Palace e, entre um suco de tomate e outro, disse que não lê notícias sobre suas novelas enquanto escreve sua obra, que mantém o hábito de ver um filme por noite mesmo na loucura de escrever os 180 capítulos, que tem contrato com a Globo até 2020 e, apesar de não gostar tanto da rotina exagerada a que será imposto nos próximos meses, não acha as férias algo tão bom: "Um homem feliz é um homem de rotina", afirmou.

Desde 2008, a classe C superou a classe D no Brasil e a TV paga passou a perseguir esse público. Você entregou a sinopse da novela em 2009. Foi uma encomenda?

Não. Nem foi uma tentativa oportunista para agradar à classe C, uma percepção minha da vida no Brasil. Moro em Copacabana há três meses e percebi que, diferentemente de Ipanema, onde morava, não há mais aquela coisa de famílias burguesas e gente do morro. Está uma classe social mais uniforme. Dá pra ver que a passagem do Lula foi marcante nesse sentido.

De que forma essa mudança reflete no telespectador?

As pessoas não têm mais interesse na vida de rico, de jatinhos, milhões de dólares. Esse é perfil do telespectador do século 20. O programa Mulheres Ricas é engraçado, mas o interesse do público está próximo da realidade dele. As novelas do Aguinaldo sempre falaram disso. Senhora do Destino, Duas Caras... Estou entrando nessa seara que é muito dele.

Você se criou no Leblon (zona sul do Rio). Conhecia o subúrbio?

Quando era pequeno, ia dormir na casa da minha empregada, no Méier. Agora, desde 2010, fui a Bangu, Duque de Caxias, Del Castilho, Nova Iguaçu e Guadalupe. Entrevistei a elite de lá: dono de motel, de empresa de ônibus. Vi que o subúrbio está mais rico, pulsante, moderno. Nos shoppings há H. Stern, Forum, curso de francês. Nada disso havia. Não tinha um restaurante. Tinha a churrascaria, o posto de gasolina e só. Mudou a autoestima. Antes, a maioria queria se mudar pra Barra. Hoje, querem ficar ali.

O fictício bairro do Divino é parecido com o subúrbio que você visitou?

É fabulado. É quase um subúrbio science fiction, digamos que é o subúrbio daqui a 20 anos, que deu certo. Há pouca violência. Visitei o Aterro de Gramacho (na Baixada Fluminense), mas meu lixão será totalmente literário. Parece aquele lugar que Oliver Twist (do romance de Charles Dickens) chega em Londres, nada a ver com o lixão que conheci. A impressão é que as pessoas lá foram jogadas no lixo. Mas a novela é uma fábula do século 19, não tem pretensão sociológica.

A classe C é tradicional. Como você faz para inovar e, ao mesmo tempo, agradar a essa parcela da audiência?

Faço um capítulo para agradar primeiro a mim. Mas sempre imagino que há uma criança ou senhora mais careta do que eu assistindo. Exerço uma autocensura, porque estou invadindo a casa das pessoas e tenho de fazer isso de maneira elegante.

Você estreou no horário das 9 com A Favorita, uma trama muito inovadora. Sente pressão por inovação?

Isso pode acontecer por eu ser mais jovem que os outros autores do horário. Mas minhas histórias são mais folhetinescas do que as das outras araras, pra bem ou pra mal. Acho que dá pra inovar se você for buscar na tradição. Faço um resgate das novelas de antigamente: a novela centrada em pouquíssimos núcleos e personagens.

Por isso todas as suas novelas sofrem uma virada após três meses?

Sim. No cinema também temos que fazer uma matemática para prender a atenção do espectador. Em novela não são 2 horas, mas 180 horas. Serão só 32 personagens e tenho que fazer com esses eles se reinventem. Como telespectador prefiro assim, do que ter uma multidão na minha frente.

Teremos uma virada em Avenida Brasil?

Tem uma coisa no terceiro mês que é estopim pra grande virada que, dessa vez, acontecerá no terço final. A trama se costura muito mais como um romance que vai se adensando.

O Aguinaldo Silva disse no Roda Viva que os autores de novela das 9 são seis ararinhas azuis em extinção. Você quis muito esse posto?

Me foi sugerido e acho sempre muito sedutor você ser visto por todo mundo. Mas não aspirava esse posto. Não imaginava nem que iria escrever novelas 15 anos atrás. E sobre a frase do Aguinaldo, acho que o que está em extinção é o personagem do autor de novela que persegue sua obra como uma cruzada pessoal, que é o caso desses autores. Como tudo, a tendência é todo mundo virar um pouco funcionário público. Essas araras tentam emplacar seus projetos pessoais dentro de um esquema empresarial.

Por ter alcançado esse posto, você sente a inveja por parte das pessoas?

Acho que a maioria não quer essa batata quente na mão. Porque é um lugar muito tenso, difícil. Acho que as pessoas invejam até certo ponto. É uma guerra fazer 180 capítulos de 1h, e o autor das 9 é referido como um personagem, é criticado como um técnico de seleção. Se uma novela das 6 ou das 7 vai mal, as pessoas falam: "A novela está chata." Na das 9 é: "O autor errou".

Pensa em fazer algo que não seja novela?

Séries. Mas não sei mais se é A Cura (2010). Tenho uma ideia de telefilme também. Para o cinema, só se for algo que cutuque a sociedade, como Tropa de Elite cutucou. E só se fosse como diretor. Roteirista nunca mais. Porque o roteirista tem um cliente, o diretor. Depois de fazer novela, quero ser o dono da minha história.

Nascido em 17/2/1970 no Rio, colaborou em roteiros de filmes como Central do Brasil e Orfeu, das minisséries A Muralha e Os Maias. Como autor titular assinou Da Cor do Pecado, supervisionada por Silvio de Abreu. Vieram depois Cobras e Lagartos e A Favorita.

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