O submundo de William Boyd

Inspirado em casos reais, autor escocês criou gírias para retratar o ambiente de plutocratas, cientistas e prostitutas

Ubiratan Brasil ENVIADO ESPECIAL PARATY, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2010 | 00h00

Visão. Para Boyd, foi fascinante escrever do ponto mais alto da sociedade ao mais baixo

 

 

A literatura do escocês, nascido em Gana, William Boyd é pontuada pela realidade. Com diálogos cinematográficos (influência natural de quem escreve roteiros), sua obra se classifica no que se convencionou chamar de "pós-colonial", ou seja, vem carregada das cicatrizes ainda abertas depois de anos de exploração. Assim, tornou-se natural que sua mesa na Flip, marcada para as 15 horas de hoje, tivesse a companhia de Pauline Melville, natural da Guiana e autora de livros inspirados no Caribe.

Boyd, que chegou no fim de semana ao Rio, exercita-se tanto no romance como nos contos. Por conta disso, vai também conversa sobre Tempestades Comuns, longa narrativa que mostra a decadência de um rapaz até chegar ao submundo, e Fascinação, conjunto de breves textos que questionam a condição humana - os livros serão lançados pela Rocco. Sobre o assunto, Boyd conversou com o Estado.

Tempestades Comuns foi baseado em uma história real?

O mundo do romance é muito autêntico e pesquisei muito a respeito. Dois fatos básicos inspiraram o livro. Em primeiro lugar, a cada ano a polícia fluvial de Londres recolhe 50 a 60 corpos de pessoas mortas das águas do Tâmisa. Em segundo, a qualquer momento há 200 mil pessoas desaparecidas na Inglaterra. Desaparecidos, extintos, fora do radar social. Achei tão espantosas essas estatísticas que elas me impeliram a escrever o romance. Minhas histórias são solidamente "realistas". Quero que as pessoas acreditem no mundo e nos personagens que crio - são uma fusão da minha imaginação e da realidade que apreendo.

Como foi imergir no submundo?

Bem, li muito e conversei com alguns sem-teto. Mas, para um romancista, a melhor coisa é manter os olhos e ouvidos bem abertos. Viajei por Londres inteira, por todos os locais citados no romance, observando e ouvindo. É impressionante o que se descobre.

É particularmente interessante o uso da gíria na novela.

Durante minha pesquisa, descobri que na camada mais baixa da sociedade londrina a falta de escolaridade é aterradora. As pessoas mal falam inglês. Mas às vezes essa pobreza da linguagem mostra uma riqueza nas gírias - para designar a polícia, dinheiro, tipos de drogas. E esse jargão muda à medida que você circula pela cidade. Assim, em vez de usar a gíria de uma determinada área, decidi inventar a minha própria. Muitas das gírias que aparecem no romance foram criadas por mim - mas parecem muito plausíveis.

Aliás, como foi escrever um romance do ponto mais alto da sociedade para o mais baixo?

Fascinante. Eu desejava escrever sobre "a maneira como vivemos hoje" e isso em todos os níveis da sociedade. Aprendi muito sobre plutocratas, cientistas, policiais, viciados e prostitutas.

O excesso de pequenos detalhes é uma das características dos bons thrillers e dos melhores filmes de Alfred Hitchcock. Que influência esses trabalhos tiveram no seu romance?

Não creio que meus romances tenham influência de filmes. Quero que o mundo das minhas histórias seja muito real - por isso trabalho arduamente para que os detalhes estejam corretos. Faço muita pesquisa e uso também fotografias. Acho que fotos são muito úteis - especialmente se estou escrevendo uma história que tem lugar no passado ou num país que não conheço bem.

Como define que uma história será prosa ou roteiro de cinema?

Um roteiro está condicionado pela forma de arte do cinema. E comparado com a sofisticação e as liberdades do romance, o cinema é um meio muito simples, para não dizer tosco, de contar uma história. Você pode fazer qualquer coisa numa novela, absolutamente qualquer coisa. É um mundo de total liberdade. Não é o caso do filme, no qual você fica impedido, comprometido, acossado pelo fato de que há realmente um único ponto de vista - as lentes da câmera. Filme é fotografia, fundamentalmente. Assim, ele é muito objetivo. Você está sempre olhando de fora. O romance, pelo contrário, é muito subjetivo - sua esfera natural é a vida interior. As duas formas de arte são bastante distintas. Assim, quanto mais simples e mais objetiva a história ela funcionará melhor para o cinema. Quanto mais complexa, coberta de nuances e subjetiva for a história, ela se adaptará melhor a um romance.

Os atentados de 11 de setembro foram um divisor de águas?

Num sentido, sim. A relação dos Estados Unidos com o restante do mundo mudou para sempre. Mas não acredito que o inverso tenha mudado tanto. O 11 de Setembro é uma questão muito mais americana do que global. Mas, é claro que os assuntos americanos podem, com frequência, ter consequências globais, como podemos ver de maneira muito clara.

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