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O submundo de Salvador é tema das obras de Kitamura

Fotógrafo japonês abre a mostra 'Hidra', com curadoria de Miguel Rio Branco, na Fauna Galeria

CAMILA MOLINA - O Estado de S.Paulo,

07 de agosto de 2012 | 03h09

O estilo das fotografias do japonês Hirosuke Kitamura vem se criando através da temática que o atraiu em Salvador, onde vive desde a década de 1990 - um interesse pelo submundo "brega e das prostitutas". "Tem uma área na cidade com casarões antigos que funcionam como prostíbulos. Me interessa a passagem do tempo e a decadência desses lugares, as texturas das paredes, a pele das mulheres naqueles lugares escuros, em que ressalto a cor dentro da escuridão", conta o fotógrafo, que desde criança tem Oske como apelido. "É um paradoxo que vejo: pessoas cansadas, tristes, mas tem música, tem prazer e sofrimento."

Já faz tempo que Oske se dedica a essa temática - e não projeto, como ressalta. Por meio da experiência no submundo baiano, sua fotografia resultou densa, quase abstrata por vezes. "Não gosto de imagem explicativa", ele diz. Em suas obras, a "sexualidade é transparente, fugidia e se esfumaça debaixo de nossos dedos", afirma o artista Miguel Rio Branco, um dos mais consagrados nomes da fotografia no Brasil e curador da mostra Hidra, que Hirosuke Kitamura inaugura hoje para convidados e amanhã para o público na Fauna Galeria. A exposição reúne 12 imagens, além de díptico, tríptico e do políptico Bicho de 8 Cabeças, formado por oito fotografias realizadas na Índia. As obras da mostra datam desde 2004.

Natural de Osaka, com 44 anos, Oske fez faculdade de letras no Japão, com especialização em português. "Me identifiquei mais com a cultura latina do que com a europeia", ele conta. Sua primeira vinda ao Brasil ocorreu em 1990. "Escolhi Salvador para fazer intercâmbio porque era uma cidade onde não tinha muitos japoneses e também por ser diferente, exótica." No princípio, ficou um ano; depois, três; até se estabelecer por definitivo na Bahia. Trabalhando para órgão do governo japonês, Kitamura queria se especializar em algo para ganhar dinheiro: não sabia se seria cabeleireiro ou fotógrafo. Escolheu a segunda opção. Estudou, foi atrás de um estilo. Fez contato com Miguel Rio Branco que, segundo ele, "não é professor, mas diz o que pensa, claramente".

Para a exposição Hidra, Rio Branco selecionou obras de Oske relacionadas "mais a sexualidade e espiritualidade". Na mostra, o universo dos prostíbulos de Salvador carrega uma pulsão "fantasmagórica como nos contos japoneses de sempre". "Existe um outro mundo, mas ele está aqui junto a nós. Estas imagens se tornam passagem de tempo, imateriais, fora de qualquer época", afirma o curador. Os rostos das mulheres quase não aparecem nas fotografias, mas são as formas de seus corpos e seus entornos que transformam as imagens em visões interiores, intimistas, até mesmo caóticas, como no políptico Bicho de 8 Cabeças. Kitamura exibiu, este ano, suas obras na 1500 Gallery de Nova York; vai participar, ainda, da Bienal do Recôncavo, na Bahia. Em uma época de apelos e propagandas, os trabalhos do fotógrafo japonês, como diz Miguel Rio Branco, nos revelam "pedaços de sedução que divagam entre mundos perdidos", colocam um universo "em surdina".

Hidra

Fauna Galeria. Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 470, tel. 3668-6572. 3ª a 6ª, das 14 h às 19 h; sáb., das 11 h às 17h. Grátis. Até 15/9. Abertura hoje, às 19 h.

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